Primeira leitura

Da plataforma de Omaha à derrota eleitoral de 1896

Trecho de A razão populista

O Partido do Povo, nos Estados Unidos, começou suas atividades no início de 1892 em Saint Louis. Suas propostas, mais tarde reproduzidas quase literalmente na plataforma de Omaha de julho do mesmo ano, tentaram descrever o mal-estar da sociedade americana e os grandes delineamentos da coalizão que remediaria aquele estado de coisas:

"Reunimo-nos em meio a uma nação que se encontra à beira de uma ruína moral, política e material. A corrupção domina as eleições, as legislaturas, o Congresso, e chega até mesmo a atingir a toga da magistratura. As pessoas estão desmoralizadas. Muitos dos Estados foram obrigados a isolar os eleitores nos locais de votação, a fim de impedir a intimidação ou a compra de votos. Os jornais são subsidiados ou amordaçados, a opinião pública é silenciada, as empresas estão prostradas, as hipotecas sufocam nossos lares, a mão de obra empobreceu e a terra se concentra nas mãos dos capitalistas. É negado ao trabalhador urbano o direito de organização tendo em vista a autoproteção; a mão de obra importada e empobrecida deprime seus salários; um exército mercenário, não reconhecido por nossas leis, foi organizado para reprimir os trabalhadores e eles estão degenerando rapidamente, vivendo em condições semelhantes às que se observam na Europa. O fruto da labuta de milhões é ousadamente roubado para construir fortunas colossais, sem precedentes na história mundial, enquanto seus possuidores desprezam a república e põem a liberdade em perigo. No mesmo ventre prolífico da injustiça governamental foram geradas duas grandes classes: os pobres e os milionários. O poder nacional de criar dinheiro é apropriado para enriquecer detentores de bonificações; a prata, aceita como moeda desde os primórdios da história, foi desmonetarizada para aumentar o poder de compra do ouro, diminuindo o valor de todas as formas de propriedade bem como do trabalho humano; o suprimento monetário é limitado propositalmente com a finalidade de engordar os usurários, levar as empresas à falência e escravizar a indústria. Uma vasta conspiração contra a humanidade foi organizada em dois continentes e está se apoderando do mundo. Se não for enfrentada e derrotada imediatamente, ela prenuncia terríveis convulsões sociais, a destruição da civilização ou o estabelecimento de um despotismo absoluto."

Seguiu-se uma série de reivindicações, que incluía a democratização monetária, a redistribuição da terra, a nacionalização do sistema de transporte, a cunhagem ilimitada da prata, o controle das formas de utilização dos impostos e a exigência de que a telefonia, o telégrafo e o sistema postal ficassem nas mãos do governo.

Assim, a intenção era implantar uma dicotomia populista do espaço social em dois campos antagônicos. Esse objetivo seria alcançado pela criação de um terceiro partido, que romperia com o modelo bipartidário da política americana. Do ponto de vista dos agricultores, espinha dorsal do movimento populista, a ideia de um Partido do Povo foi a culminação de um longo processo que remontava à Farmers' Alliance [Aliança dos Agricultores], da década de 1870, quando várias mobilizações e projetos cooperativistas foram iniciados, mas sem sucesso duradouro. Ficou cada vez mais claro para os agricultores que qualquer passo adiante na promoção de sua causa exigiria um envolvimento político direto (uma ação cuja possibilidade despontou lentamente em suas mentes e que muitos deles aceitaram com pouco entusiasmo). Isso, entretanto, envolvia entrar em território inexplorado. Exigia que o caráter setorial de suas reivindicações não tivesse tanto relevo e que se deveria construir uma cadeia de equivalências maior e mais complexa, caso o "povo", enquanto novo ator coletivo, devesse emergir no espaço da política nacional. Houve, é claro, tentativas anteriores de formar um terceiro partido na política americana.

"Durante duas décadas, críticos dos democratas e dos republicanos vinham contestando as eleições nacionais, estaduais e locais, empunhando uma diversidade de lemas: proibição, papel moeda, antimonopólio, reforma trabalhista, sindicalismo, trabalhadores, além de centenas de partidos locais e estaduais independentes cujo nome denunciava o repúdio às regras do jogo eleitoral. Políticos solidamente estabelecidos haviam se acostumado a lançar mão de quaisquer armas linguísticas e legais de que necessitassem - o ridículo, a repressão, a cooptação - para esmagar aqueles desafiadores desarticulados, mas persistentes e rebeldes."

O Partido do Povo, entretanto, aspirava a ir além do caráter setorial, local ou centrado em questões precisas daquelas primeiras tentativas e a construir uma linguagem política verdadeiramente nacional.

Embora o espaço de um novo confronto global com os poderes existentes fosse um território inexplorado para os populistas, não era um terreno virgem. Desde o período que antecedeu a Guerra Civil, já existia toda uma tradição de defesa populista do homem humilde ou comum [small man] contra uma oligarquia financeira corrupta, sobretudo como parte da herança ideológica de Jefferson e de Jackson. A separação do homem comum daqueles que estavam nas altas esferas do poder foi o leitmotiv constante daquela tradição, embora a caracterização da elite depreciada variasse de uma versão para outra.

"Para os seguidores de Jefferson, ela consistia numa facção pró-britânica formada por comerciantes, senhores de terras e clérigos conservadores; para os adeptos de Jackson, era o 'poder financeiro', dirigido por cosmopolitas bem nascidos. Para os ativistas do novo Partido Republicano da década de 1850, era o 'poder escravista' do Sul que limitava as liberdades civis e diminuía os ganhos dos brancos do Norte."

Assim, a tarefa dos populistas da década de 1890 consistia em aprofundar essa tradição e a reformular em termos do novo contexto em que eles estavam operando.

A situação que o Partido do Povo enfrentava tinha todos os componentes que enumeramos como típicos do rumo populista da política: ampla insatisfação com o status quo existente, constituição incipiente de uma cadeia de equivalências de demandas centrada em alguns poucos símbolos altamente investidos, um crescente desafio ao sistema político como um todo. No entanto, conforme vimos, uma cadeia de equivalências é feita de elos que se dividem entre o particularismo das demandas que eles representam e um significado mais "universal", proporcionado por sua comum oposição ao status quo. Todo o sucesso da operação populista depende de fazer com que o momento universalista prevaleça sobre o momento particularista. Isso, porém, estava muito longe de ser algo tranquilo:

"A nascente coalizão de produtores em que os populistas baseavam suas esperanças era um amálgama instável de grupos sociais e de organizações políticas, cujas prioridades colidiam. Pequenos agricultores, preocupados devido às suas dívidas, queriam que fosse incrementada a oferta de dinheiro, ao passo que os trabalhadores urbanos temiam uma alta dos preços dos alimentos e aluguéis. Os proibicionistas e os reformadores financeiros se opunham ao grande capital, mas divergiam sobre quais eram seus principais pecados - o tráfico das bebidas alcoólicas ou a restrição do crédito. As vozes socialistas, com toda sua variedade - cristã, marxista e bellamyta -, enfrentavam dificuldades com os rebeldes sindicalistas e agrários, que afirmavam sua fé na propriedade privada e na maleabilidade da estrutura de classes. O facciosismo foi uma característica perene da reforma política naqueles anos e só em 1892 a maior parte dos grupos deixou de querer impor suas panaceias, o tempo suficiente para que se unissem em torno de um terceiro partido."

Superar o facciosismo implicava elaborar uma linguagem comum e neutralizar as tendências centrífugas em direção ao particularismo. Essas tendências podiam ser de dois tipos. Em primeiro lugar, existiam setores que eram heterogêneos em relação ao principal espaço da representação política (no sentido que atribuí à categoria da heterogeneidade no capítulo 5, "Significantes flutuantes e heterogeneidade social"). A população negra era proeminente nesses setores. A maioria dos populistas não questionava o dogma da supremacia branca. A maneira pragmática de lidar com a questão foi eliminar qualquer ideia de uma ordem birracial e apelar aos negros apenas em questões que envolvessem interesses econômicos compartilhados. Não é de se estranhar, então, que a receptividade da população negra àquela abertura não fosse entusiástica:

"Os populistas continuavam a presumir, como seus antecessores jeffersonianos e jacksonianos, que a 'gente comum' era a que tinha pele branca e uma tradição de posse da terra ou de exercício de um ofício. Não foi de surpreender que a maioria dos negros não aceitasse o limitado oferecimento dos populistas e, em vez disso, votasse, onde ainda tinha permissão de fazê-lo, ou no partido de Lincoln ou no dos proprietários de terras que haviam sido seus senhores."

Devemos acrescentar que essa ambiguidade em relação aos negros não existia em relação aos imigrantes asiáticos: estes foram categórica e inflexivelmente excluídos. A literatura produzida pelos Knights of Labor [Cavalheiros do Trabalho] e pela Farmers' Alliance [Aliança dos Agricultores] é repleta de referências pejorativas aos "asiáticos" e "mongóis".

À parte esses setores, incluídos na categoria geral de "heterogêneos", havia também aqueles que o discurso populista tentou interpelar, mas cujo particularismo diferencial resistiu a sua integração à cruzada populista. O relacionamento entre o Partido do Povo e os Knights of Labor, por exemplo, foi sempre tenso; muitos trabalhadores artesanais e industriais ignoraram o apelo populista. O discurso cristão evangélico das áreas rurais não encontrou receptividade na população de trabalhadores imigrantes que, em muitos casos, não tinha origem protestante.

A tentativa de estabelecer uma inscrição de equivalência que prevaleceria sobre esse particularismo diferencial girou em torno da definição dos "produtores", em oposição aos "ociosos" e "parasitas", que deveria ser suficientemente vaga e abstrata, a fim de incluir a maioria dos setores da população. Conforme Kazin assinala, foi uma faca de dois gumes: se "produtores" se tornou um significante vazio ao serem afrouxados os laços com referentes particulares, essa disposição também poderia ser apropriada por setores diferentes dos populistas e reinscrita numa cadeia de equivalências alternativa, isto é, poderia tornar-se um significante flutuante. Essa múltipla referência a que tendia o discurso populista refletiu-se na plataforma do movimento:

"Prometeu-se aos agricultores assoberbados por dívidas um aumento da oferta monetária, a proibição da aquisição de terras por parte de forasteiros e a posse, por parte do Estado, das ferrovias, que obrigavam frequentemente os pequenos agricultores a pagar tarifas acima de suas posses. Para os assalariados, respaldou-se a ofensiva de redução da jornada de trabalho, exigiu-se a abolição da Agência Pinkerton e declarou-se que 'os interesses dos trabalhadores rurais e urbanos são os mesmos'. Quanto aos reformistas monetários e aos habitantes dos estados mineradores do Oeste, eles pediram a cunhagem ilimitada de prata e ouro. Em apenso à plataforma havia 'resoluções suplementares', tais como uma 'garantia' de que as pensões por motivo de saúde continuassem a ser pagas aos veteranos da União e apoio para que se boicotasse uma manufatura de roupas de Rochester que já havia sido objeto de ação dos Knights of Labor."

Temos, assim, uma típica "guerra de posições" entre uma tentativa populista de inscrição de equivalência e uma lógica diferencial que resiste a ela. Os limites da constituição do "povo" se refletiram nos resultados eleitorais de 1892 e 1894. Embora o número total de votos obtidos pelo Partido do Povo fosse expressivo, esses votos concentravam-se quase inteiramente no Sul profundo e no Oeste para além do Mississippi. Tornou-se evidente que, se o partido pretendesse se tornar uma verdadeira alternativa nacional, seria preciso dar um passo novo e ousado. Isso levou ao apoio populista, na eleição de 1896, ao candidato democrata William Jennings Bryan, cuja plataforma encerrava muitas conotações populistas, embora enfatizasse demais a questão do padrão prata.

As eleições americanas de 1896 têm um valor quase paradigmático para nosso tema porque os dois lados do confronto ilustram, em sua forma mais pura, aquilo que denominei a lógica da equivalência e a lógica da diferença. O sucesso da campanha de Bryan dependeu inteiramente de constituir o "povo" como um ator histórico, isto é, fazer com que identificações universais de equivalência prevalecessem sobre identificações setoriais. O que havia de comum naquele eleitorado devia, assim, ser afirmado a qualquer preço. A seguinte passagem é típica do discurso de Bryan:

"Enquanto contemplo o rosto dessas pessoas e lembro de que nossos inimigos as chamavam de turba, dizendo que elas são uma ameaça para um governo livre, pergunto: quem terá o povo a favor de si? Orgulho-me de contar, nesta campanha, com o apoio daqueles que denominam a si mesmos gente comum. Se eu tivesse por detrás de mim grandes monopólios e suas combinações, sei que mal eu assumisse meu posto, eles pediriam que eu usasse meu poder para roubar as pessoas em seu proveito."

Contra o "povo", a campanha de McKinley, conduzida por seu conselheiro, Mark Hanna, adotou o lema da "sociedade progressista". Aqui já não existe mais qualquer apelo a uma massa homogênea, indiferenciada, mas ao desenvolvimento orgânico e ordenado de uma sociedade, na qual cada um de seus membros ocuparia um lugar preciso e diferente, e cujo centro era uma elite identificada com os valores americanos.

"Dado o potencial dos votos 'do povo' contra 'os grandes monopólios e suas combinações', os republicanos obviamente não podiam deixar que a campanha fosse decidida naquela base. A ideia contraposta de uma 'sociedade progressista' materializou-se lentamente, a partir de valores simbólicos ligados ao padrão ouro [...]. Mas gradualmente [...] temas mais amplos como 'paz, progresso, patriotismo e prosperidade' passaram a caracterizar a campanha de William McKinley. A 'sociedade progressista', preconizada por Mark Hanna em nome da comunidade corporativa, era inerentemente uma sociedade bem vestida, que frequentava a igreja. Os vários lemas empregados não constituíam mera expressão de uma política cínica, mas eram afirmações autênticas de uma emergente visão de mundo americana."

Como Goodwyn afirma em Democratic Promise [A promessa democrática], o partido de Lincoln se tornara o partido das empresas e a encarnação política dos Estados Unidos corporativo.

"Era branco, protestante e ianque. Pedia os votos dos eleitores não brancos, não protestantes e não ianques que aderiram voluntariamente às novas normas culturais que descreviam a civilidade como um parâmetro da sociedade progressista emergente. O termo 'patriótico' passou a sugerir aquelas coisas que os ianques protestantes possuíam [...]. O muro erguido pela sociedade progressista contra 'o povo' sinalizava algo mais do que a vitória de McKinley sobre Bryan, até mesmo mais do que a sanção de uma concentração corporativa maciça; assinalava os limites permissíveis da própria cultura democrática. A incitação à animosidade podia, finalmente, ser posta de lado: o partido das empresas criou na sociedade mais ampla os valores culturais que haveriam de dar-lhes sustentação no século XX."

A derrota da "promessa democrática" implícita no populismo norte-americano adotou, então, o modelo que temos discutido no decorrer deste livro: a dissolução dos laços de equivalência e a incorporação diferencial de setores numa sociedade orgânica mais ampla ("transformismo", para utilizar a expressão de Gramsci). E essa incorporação diferencial não foi, obviamente, igualitária, mas hierárquica. Para citar novamente Goodwyn:

"Para um número cada vez maior de americanos, o triunfo do credo empresarial equivalia, quando não excedia, a uma internalização consciente ou inconsciente dos pressupostos de uma supremacia dos brancos. Acoplado a esse novo sentido de prerrogativas embutido na ideia de progresso, o novo ethos significava que os homens de negócio republicanos podiam intimidar seus empregados democratas no Norte, os homens de negócio democratas podiam intimidar seus empregados populistas e republicanos no Sul, os homens de negócio de todos os lugares podiam comprar os legisladores, e os brancos de todos os lugares podiam intimidar os negros e os índios."