Primeira leitura

Uma história desconhecida

Trecho de A cozinha venenosa: um jornal contra Hitler, de Silvia Bittencourt

"A batalha travada entre Hitler e os corajosos repórteres do Post é um dos grandes dramas nunca relatados da história do jornalismo."
Ron Rosenbaum, Para entender Hitler, p. 109

A história do maior adversário de Adolf Hitler na imprensa, o jornal Münchener Post, ainda é muito pouco conhecida tanto na Alemanha como fora dela. Raros especialistas, particularmente os que se ocupam do passado da imprensa da Baviera e da ascensão do nazismo, detiveram-se sobre a antiga publicação social-democrata. Para eles, suas páginas são preciosas fontes históricas. Mesmo assim, até hoje nenhum pesquisador achou que valesse a pena contar em detalhes a história do Post e dos corajosos redatores que foram os primeiros e os últimos na imprensa alemã a enfrentar os nazistas e alertar sobre o perigo que representavam.

Há várias razões para tal desinteresse na Alemanha, entre elas o fato de, apesar de sua impetuosidade, o Münchener Post ser um pequeno jornal, se comparado aos concorrentes, além de muito ideológico e inclinado ao sensacionalismo. Para seus jornalistas, mais importante do que a precisão das informações era o ataque a ser desfechado. Qualquer denúncia, crítica e informação contra Hitler, seu partido e os homens da violenta Sturmabteilung (SA, Tropa de choque), encontrava espaço na publicação, muitas vezes na primeira página.

A história do Münchener Post não é muito conhecida nem mesmo entre os descendentes daqueles que trabalharam para o diário. A maioria dos netos e bisnetos dos redatores, colaboradores e advogados do jornal sabe muito pouco da atividade audaciosa, arriscada e persistente de seus avôs e bisavôs.

Esse é o caso do empresário Christian Goldschagg, com quem conversei num escritório no bairro de Feldmoching, em Munique. Ex-ciclista profissional e dono de uma empresa que promove eventos em locomotivas a vapor, ele é neto de Edmund Goldschagg, editor de política do Post e cofundador do Süddeutsche Zeitung, um dos jornais mais importantes da Alemanha depois da Segunda Guerra. Do avô, entretanto, Christian disse se lembrar muito pouco: apenas de sua figura simpática e sorridente, que percorria as ruas de Munique num carro conduzido por chofer. Ele tinha apenas onze anos quando Edmund morreu, em 1971, e ficou impressionado quando lhe contei sobre as perseguições promovidas pela SA das quais seu avô fora vítima.

O bioquímico Erich Hirschberg, filho do principal advogado do Post, o judeu Max Hirschberg, deixou a Alemanha com a família aos doze anos, em 1934. "Não me lembro de ouvir meu pai discutir seu trabalho para o Münchener Post", ele me escreveu numa carta, em dezembro de 2011, quatro meses antes de morrer, aos noventa anos, em Hillsboro Beach, na Flórida. Depois da Segunda Guerra, Max não quis voltar para seu país natal e permaneceu com a família nos Estados Unidos. Aconselhava os norte-americanos sobre direito alemão e representava famílias judias nos processos de indenização e restituição dos bens que os nazistas lhes haviam usurpado. Também passou a traduzir escritores russos do século XIX para o alemão.

Erich seguiu carreira científica, tornando-se professor emérito da New Jersey School of Medicine, em Newark. Sua filha, a professora aposentada Judy Atwood, nascida em 1952, só tomou conhecimento do passado turbulento do avô ao ler a biografia dele e as memórias que publicou. Tinha doze anos quando Max Hirschberg morreu, em 1964, em Nova York. "Até muito tempo depois de sua morte não fazia ideia de que fora uma figura significativa para a história alemã", escreveu em um dos vários e-mails que trocamos. Ela se lembra do avô como uma pessoa generosa, que sempre passava os fins de semana na casa do filho Erich, em Valley Stream, nos arredores de Nova York. Ali, tocava piano para a família. "Se conversavam sobre o passado, falavam provavelmente em alemão, que eu não entendia", contou. Hoje, Judy vive em Shelton, Connecticut.

Já Harimella Stock, filha do jurista e político Wilhelm Hoegner, articulista do Münchener Post, recorda-se bem do medo que tomou conta da família em 1933, quando ela estava com catorze anos e a perseguição contra os social-democratas foi deflagrada. Até uns tempos atrás, Harimella fazia palestras sobre a vida do pai.

Tinha 91 anos quando me concedeu uma entrevista em sua casa, em Aschaffenburgo, no norte da Baviera, numa tarde quente de julho de 2011. Da mesa de jantar, à qual nos sentamos para conversar, eu podia ver uma sala cheia de móveis e porta-retratos com fotos antigas. Acompanhada do marido, o também social-democrata Rudi Stock, dois anos mais novo do que ela, Harimella me mostrou uma pasta cheia de fotos, artigos de jornal e documentos. Falava de maneira pausada, à medida que ia se lembrando do passado.

Nas fases mais tranquilas da chamada República de Weimar - período entre o final da Primeira Guerra, em 1918, e a chegada dos nazistas ao poder, em 1933 -, a família Hoegner costumava passear no Jardim Botânico de Munique com o político Erhard Auer, editor-responsável do Münchener Post. Líder da social-democracia bávara, Auer chefiou o jornal de 1921 a 1933, quando foi fechado definitivamente. "Para mim, Auer era como um avô, sempre tranquilo", disse Harimella. A jovem, que também visitava a redação do Post com o pai, passou a ajudá-lo, escrevendo mensagens para correligionários e levando documentos confidenciais ao jornal, sempre que suspeitavam de alguma busca da polícia nazista em sua casa. Numa ocasião, foi ela que preveniu o pai por telefone de que a Schutzstaffel (SS, Escalão de proteção), guarda particular de Hitler, estava em seu encalço. A destruição do apartamento da família Hoegner ficou gravada em sua memória: "Eles quebraram tudo e levaram muita coisa. Até minha harmônica desapareceu". Durante um período, ela, a mãe e o irmão viveram numa pensão em Munique. O pai
dormia na casa de social-democratas pouco conhecidos, para não ser encontrado pelos nazistas.

Autor da primeira Constituição da Baviera e governador da região depois da Segunda Guerra, Wilhelm Hoegner escreveu vários livros sobre suas experiências na República de Weimar, durante a perseguição em 1933, o exílio e os anos de reconstrução da Alemanha. Essas memórias costumam ser lidas em encontros públicos em Munique pelo seu bisneto e sobrinho-neto de Harimella, Ludwig, nascido em 1979. Os Hoegners mantêm-se ligados ao Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD, Partido Social-Democrata da Alemanha), mas hoje ninguém da família ocupa cargo político.

Apesar de o SPD de Munique ter uma editora chamada Münchner Post, mesmo entre os social-democratas da cidade a história do antigo jornal é desconhecida. Quem me assegurou isso foi o advogado e historiador Klaus Warnecke, ex-deputado estadual, durante uma conversa em junho de 2011, numa cervejaria de um antigo reduto social-democrata: o bairro de Sendling, no sul da cidade. Ele está há cinquenta anos no SPD e é um dos que melhor conhecem a história do partido.

A editora Münchner Post edita um pequeno jornal com o mesmo nome da antiga publicação social-democrata. A semelhança, no entanto, para aí. O atual Münchner Post (grafado sem o "e" de sua versão antiga) é mais um panfleto, com periodicidade irregular, que circula principalmente em épocas de campanha eleitoral. "Hoje, entre nós, o nome Münchener Post só é corrente para designar esses folhetos social-democratas", afirmou Warnecke.

A cozinha venenosa, portanto, é o primeiro livro a recuperar e contar em detalhes a história do combatente vespertino Münchener Post. Da primavera de 1920, quando começou a falar de Hitler, a 9 de março de 1933, dia em que a redação foi destruída, o Post não fraquejou em sua campanha contra o futuro ditador, denunciando por mais de dez anos os métodos e planos do líder nazista. Hitler odiava a publicação e a chamava de Münchener Pest, peste de Munique, ou de Giftküche, cozinha venenosa. "Cozinhar", no jargão da imprensa, é reescrever um texto já publicado. No caso do Post, Hitler dizia que o jornal "preparava" seus textos com "veneno" - ou, como gostava de afirmar, com "inverdades" e "difamações". Foram suas palavras, porém, que de fato envenenaram a Alemanha nos atormentados anos 1930.

Não só em seus discursos, mas também nos artigos publicados no antissemita Völkischer Beobachter (Observador Nacionalista), órgão oficial do partido nazista desde 1920, Hitler e seus comparsas esbravejavam e incitavam contra o jornal social-democrata. Com os nazistas amparados por tropas fortemente armadas, não surpreende que os conflitos tenham, com frequência, saído das páginas impressas para a violência física. E é também dessa luta desigual que trata este livro.