Primeira leitura

Os católicos e seus mortos

Trecho de Uma breve história da eternidade, de Carlos Eire

Como resposta à Reforma Protestante, os católicos aderiram aos mortos de uma maneira ainda mais forte do que antes, intensificando as diferenças surgidas no século XVI entre as duas religiões.

Com respeito ao Purgatório, o Concílio de Trento (1545-63) decretou que, de fato, "existe um Purgatório, e as almas lá detidas são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e principalmente pelo aceitável sacrifício do altar". Além disso, ele também instava todos os bispos a "lutar diligentemente até o fim para que a doutrina do Purgatório, transmitida pelos padres e concílios sagrados, fosse acreditada e mantida pela fé de Cristo, e fosse ensinada e pregada em todos os lugares".

Sobre a veneração dos santos no Céu, o concílio manteve-se igualmente firme em sua defesa da tradição, pedindo a todos os bispos para "instruir diligentemente os fiéis em questões relativas à interseção e à invocação dos santos, à veneração de relíquias e ao legítimo uso de imagens, ensinando-os que os santos que reinam junto a Cristo oferecem suas orações a Deus pelos homens, que é bom e benéfico invocá-los em súplica e recorrer às suas orações, ajudar e apoiar de modo a obter favores de Deus através de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor, que, apenas Ele, é nosso redentor e salvador".

Essa reafirmação da tradição foi extremamente bem-sucedida em todos os níveis, nem tanto por ter sido decretada desde o alto, pelo papa e o concílio, mas sim porque parece ter sido abraçada, de maneira incondicional, por todo o mundo católico, tanto as elites quanto o povo. Era de grande ajuda, é claro, que as elites da Igreja e o Estado cultivassem uma retomada do interesse pelos mortos e pela vida após a morte.

Na Espanha, supostamente a nação católica mais influente do planeta naquela época, um exemplo fundamental da elite em torno dessa renovada devoção tridentina foi o próprio rei, Filipe II, que trabalhou muito para reificar não só seu papel como monarca católico, mas também o poder da Igreja sobre os mortos e a ligação entre vivos e mortos. Filipe construiu para si e seus sucessores um complexo de monastério e palácio diferente de todos os outros na Terra, e seu eixo era o culto dos mortos. Construído entre 1563 e 1596, ao custo dos tesouros trazidos durante um ano inteiro do Novo Mundo, a imensa estrutura de San Lorenzo de El Escorial era, na época, a maior construção do mundo. Dentro desse perímetro, Filipe fez um aglomerado de palácio, mosteiro, basílica, biblioteca e seminário, junto com 8 mil relíquias de santos - a maior coleção do mundo, com a mais meticulosa catalogação -, às quais foram atribuídas dezenas de milhões de anos de indulgências. Composto por monges hieronimitas, cujo único propósito era rezar pelo rei e pela família real, tanto vivos quanto mortos, o mosteiro de San Lorenzo era uma verdadeira máquina de rituais, em que missas eram oferecidas constantemente em numerosos altares - exceto quando a regra hieronimita impunha que os monges dormissem -, nos quais centenas de monges entoavam o Saltério dia após dia, cem cessar.

Não contente em apenas viver com seus monges e padres, o rei Filipe também construiu aposentos privados o mais próximos possível do Céu, bem atrás do principal altar da basílica, flanqueada de todos os lados pelas 8 mil relíquias, e posicionou seus aposentos de tal modo que conseguisse avistar de sua própria cama o altar principal. Logo abaixo desse altar, e, portanto, também abaixo de sua cama, Filipe construiu uma cripta imensa para toda a dinastia Habsburgo, incluindo seu pai, ele mesmo e todos os futuros sucessores do trono. Sempre que estava no Escorial, o que acontecia com a maior frequência possível, ele vivia, trabalhava e dormia logo acima do corpo do pai e do túmulo que ele mesmo um dia ocuparia, bem como da tumba de seu filho e de todos os descendentes ainda não nascidos.

Em seu testamento, Filipe fez saudações a tantos santos intercessores que sua lista de protetores assemelhava-se ao total de santos invocados em todos os testamentos escritos em Madri. Ele também retirou todas as suspensões no que se referia aos sufrágios, atribuindo aos padres hieronimitas trabalho perpétuo e impondo demandas pesadas aos padres de todos os lugares, e não apenas em Escorial. Primeiro, Filipe queria a celebração diária de missas por cada padre no Escorial durante nove dias depois da sua morte. Depois, pediu que 30 mil missas fossem oferecidas "o mais rápido possível" pelos franciscanos de todo o reino, "com a mais alta devoção". Não contente com tudo isso, Filipe também exigiu que uma missa solene fosse celebrada por sua alma no altar principal da basílica do Escorial, todos os dias, até a segunda vinda de Cristo, e acrescentou uma oração especial para sua alma às horas canônicas diárias dos hieronimitas. Isso sem considerar as outras dezenas de milhares de missas que ele exigiu para os parentes, ou como se concentrou em cada detalhe de seu funeral, ou quantos funerais foram realizados em todo o reino depois da sua morte, e ainda quantas centenas de milhares de velas foram usadas. É de deixar qualquer um desorientado.

Para que esse passeio alucinante pelo Escorial não fique sem graça, dado que a extravagância convém aos reis, consideremos que Filipe e sua cidade dos mortos combinada com fábrica de orações eram apenas a ponta do iceberg. Quando examinamos os testamentos de seus súditos, encontramos centenas de milhares, até mesmo milhões de espelhos refletindo o mesmo tipo de obsessão, apenas em uma escala relativamente menor. Vistas no conjunto, as missas e orações exigidas pelos espanhóis na época de Filipe II e seus sucessores, Filipe III e Filipe IV, ofuscariam os esforços no Escorial e os fariam parecer apenas o ponto no final de uma das frases de Dom Quixote, de Cervantes. Quando, daqui a algum tempo, finalmente forem calculados os custos, e tenho certeza de que o serão, é bem provável que a quantidade de dinheiro gasto pelos súditos desses três Filipes com suas almas e as dos seus mortos tenha facilmente facilmente superado a quantidade gasta pelos monarcas, resultando em muito mais do que vários anos de tesouros levados do Novo Mundo.