Primeira leitura

A guinada ideológica da
Folha da Tarde

Edição de 14 de outubro de 1968 da Folha da Tarde

Com diagramação moderna e linguagem mais coloquial, o jornal-irmão do Estado - criado por Mino Carta e consolidado por Murilo Felisberto, que o editou até 1978 - tinha boa aceitação no meio estudantil. Com a Folha da Tarde, Frias e Caldeira queriam conquistar parte desses novos leitores, missão que delegaram a Jorge de Miranda Jordão, que planejava criar uma publicação alternativa quando recebeu o convite. O jornalista tinha evidente repúdio à ditadura: havia dirigido a Última Hora do Rio de Janeiro antes de se desentender com Samuel Wainer, que, do exílio, queria abrandar as críticas do jornal aos militares.

Miranda Jordão montou uma redação de esquerda, com diversos jornalistas ligados a organizações clandestinas. Foram contratados Luiz Roberto Clauset e sua mulher, Rose Nogueira, que integravam a equipe de apoio da aln. O mais proeminente deles, Frei Betto, vinculado ao líder da aln, Carlos Marighella, começou como repórter responsável pela cobertura do movimento estudantil. "A Folha da Tarde tornou-se o único jornal a enfocar os fatos pela ótica dos manifestantes, reservando pouco espaço à versão das autoridades", conta Frei Betto. Mais tarde, promovido a chefe de reportagem, o frade dominicano extrapolou o papel de jornalista ao usar sua função para proteger integrantes de grupos da guerrilha urba­na. "Mantive um setorista no Dops que me passava informações sobre operações repressivas, de modo a prevenir os alvos visados."

Pelo menos uma vez o esquema salvou um jornalista das malhas da repressão. "Uma tarde, o setorista disse lá na redação que escutara, no Deops, a ordem de prisão contra Paulo Patarra, com quem eu trabalhara na revista Realidade", conta o religioso. "Larguei a chefia de reportagem como se fosse ao banheiro, tomei um táxi e fui parar na rua São Vicente de Paula. Arranquei Patarra de casa, antes que a polícia chegasse." Frei Betto também tinha acesso a informações de grupos clandestinos e as divulgava segundo os interesses dos guerrilheiros. "Mili­tantes de organizações armadas transmitiam-me com antecedência planos de expropriações bancárias e de roubos de explosivos e armas, para que o jornal estivesse preparado para furar o bloqueio da censura e noticiar as ações revolucionárias."

Foi Frei Betto quem recrutou Miranda Jordão para a militância clandestina. O diretor da Folha da Tarde mantinha um apartamento no bairro de Santa Cecília, próximo da redação do jornal, onde, "entre coleções de revistas pornográficas e uísques raros", abrigava dirigentes da aln. Tinha também um perfil curioso, com sua "fachada de playboy, carro esporte e intensa vida noturna, dando cobertura a Marighella", como descreve Frei Betto, que mais tarde dedicaria a Miranda Jordão seu livro Batismo de sangue, sobre o período da guerrilha.

Popular entre os estudantes, mas sem nunca ter sido um êxito editorial, essa fase da Folha da Tarde terminou com a decretação do ai-5, em dezembro de 1968. Na realidade, em setembro, Miranda Jordão já havia deixado o comando da redação para assumir o Departamento do Interior, Correspondentes e Sucursais (Dics), precursor da Agência Folha, onde ficaria até o início de 1969. Até a véspera do Natal de 1968, a Folha da Tarde teve como editor-chefe Antônio Pimenta Neves. A redação de esquerda seria desmontada no início do ano seguinte. Em janeiro de 1969, Frei Betto cai na clandestinidade; em maio, Miranda Jordão, que se tornara peça importante no esquema de apoio a Marighella, e já fora do jornal, é demitido da empresa; e, em 4 de novembro, no mesmo dia em que o líder da aln morre numa emboscada, Rose Nogueira é detida. Todo o grupo da organização subversiva que trabalhava na Folha da Tarde acaba sendo preso.

Em reação a esse período de domínio da esquerda armada em um de seus jornais, a empresa promove uma guinada ideológica na Folha da Tarde, colocando-a sob a direção de jornalistas ligados à polícia. O jornal passa a apoiar a linha dura do governo e até a cooperar com as forças da repressão. Por sua singularidade, pela polêmica que gerou e pelas ilações que se fizeram sobre o comportamento ético da empresa, o fato merece ser visto mais de perto.

Edição de 1º de abril de 1971 da Folha da Tarde

A partir de 1969, coincidindo com o endurecimento do regime mili­tar e o "milagre econômico", as Folhas fazem um recuo estratégico. A empresa, apesar das aquisições recentes, ainda não havia se consolidado e seus jornais tinham pouca relevância. Nessas condições, seus donos entenderam que não havia como resistir a pressões do governo sem colo­car as publicações sob ameaça. "Eu nunca fui homem de bravatas", afirmou Frias. "Fechar o Estado era uma tarefa difícil. Fechar a Folha era uma coisa facílima."

É nesse período que se instala, no Grupo Folha, um núcleo de funcionários ligados à polícia, que teria maior visibilidade na Folha da Tarde, sob o comando de Antônio Aggio Jr. Oriundo do Cidade de Santos, jornal que ajudou a criar, em 1967, Aggio trabalhava desde o final dos anos 1950 na Folha da Manhã, onde começou como repórter policial. Ele assumiu a Folha da Tarde em junho de 1969, um mês depois de Miranda Jordão deixar a empresa. Desde 1962, Aggio tinha um cargo administrativo na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e já atuava como assessor do delegado Romeu Tuma. Este, por sua vez, trabalhava com o delegado Sérgio Para­nhos Fleury, do Dops, ligado à linha de frente do combate à esquerda armada. Durante todo o período em que editou o Cidade de Santos e a Folha da Tarde, Aggio recebeu salário também do aparelho poli­cial do Estado.

O jornalista franqueou a Folha da Tarde a policiais e militares. O chefe de reportagem, Carlos Dias Torres, era investigador de polícia. O editor de internacional, Carlos Antônio Guimarães Sequeira, trabalhava como delegado e agente do Dops. Um repórter, Edson Corrêa, tinha patente de major da Polícia Militar. O delegado Antônio Bim também esteve por algum tempo no jornal. Além deles, Horley Antônio Destro circulava na redação com uma pistola automática. A presença desses e outros policiais-jornalistas na Folha da Tarde lhe valeu a alcunha de "o jornal de maior tiragem do país", ou seja, aquele com o maior número de "tiras".

Desempenhando o papel de porta-voz da repressão, a Folha da Tarde ficaria conhecida, ainda, como "Diário Oficial da Oban". Por coincidência, a Operação Bandeirantes (Oban), ramo paulista da repressão política, foi criada em junho de 1969, uma semana depois da reviravolta da Folha da Tarde. Para Boris Casoy, a Folha da Tarde desse período não era um jornal de direita, mas de polícia: se o país estivesse sob uma ditadura de esquerda, comentou o jornalista, seria um jornal da polícia comunista.

Trecho de História da imprensa paulista