Primeira leitura

Um século de guerras

Trecho de Guerras europeias, revoluções americanas

A Europa entrou no século XVIII em guerra e o terminou legando ao século seguinte mais quinze anos de conflito. Foram conflitos longos, brutais, custosos e exaustivos para todos, mesmo quando resultavam em aumento territorial para os vencedores, seja na Europa, seja em outro continente, já que possessões nas Américas, África ou Ásia também eram utilizadas como moeda de troca na solução dos embates.

A Guerra da Sucessão da Espanha durou de 1702 a 1715; a Grande Guerra do Norte, desde o início do século XVIII até 1721, opondo a Suécia à Rússia, Dinamarca, Saxônia e Polônia; o Império Otomano foi à guerra contra Áustria, Rússia e Veneza na segunda década do século; a Guerra da Sucessão da Áustria durou de 1740 a 1748; a Guerra dos Sete Anos de 1756 a 1763; uma guerra que durou três anos, opondo Espanha e França à Grã-Bretanha, ajudou os Estados Unidos a conseguirem sua independência; finalmente, a Rússia e o Império Otomano enfrentaram-se mais duas vezes entre 1768 e 1792. Também trágico foi o desaparecimento da Polônia; parcialmente dividida, em 1772-3, entre Áustria, Prússia e Rússia; em 1793 perdeu mais território, dessa vez para a Prússia e a Rússia, e dois anos mais tarde deixou de existir como país independente, pois foi absorvido por completo pelos três insaciáveis vizinhos.

Rússia e Prússia estavam ocupadas, durante os primeiros anos da Revolução Francesa, com planos de expansão territorial: a primeira, à custa do Império Otomano, e as duas vigiando-se mutuamente quanto aos planos, que ambas tinham, de abocanhar mais um pedaço da Polônia; assim, os acontecimentos na França, embora não ignorados de todo, só começaram a receber a atenção merecida quando a existência da monarquia francesa começou a mostrar-se seriamente ameaçada.

A Áustria, que a princípio ficara indiferente, passou a manifestar seu interesse pela manutenção de Luís XVI no trono, atitude motivada pelo pedido da rainha francesa ao irmão, o imperador austríaco, o qual, entretanto, não tinha a intenção de ir mais uma vez à guerra contra a França. Quanto à Grã-Bretanha, de início mirava com complacência o que ocorria, não muito descontente em ver a constante inimiga de vários séculos - e muito recentemente aliada dos Estados Unidos na guerra que custou à Inglaterra a perda de sua rica colônia - num estado de desorganização e penúria financeira, não sendo, portanto, ameaça à ilha britânica. William Pitt, o primeiro-ministro britânico, desejava a paz de que o país precisava a fim de sanear suas finanças.

Em 1792, a guerra declarada pela França à Áustria, guerra que somente os republicanos mais extremados e os mais inconformados emigrados franceses desejavam, voltou a destruir a paz na Europa; o continente deveria esperar até 1815 pela tranquilidade que lhe faltara por tanto tempo.

"O século XVIII inventou a batalha no sentido moderno. [...] Na ausência de vastas perspectivas estratégicas, o choque no campo de batalha sempre se torna a prioridade. [...] Geralmente [as batalhas] opõem a maior parte ou a totalidade das forças disponíveis [...] sendo ainda muito cedo para serem vistos movimentos concertados de divisões autónomas."

Como o resultado de uma guerra podia ser decidido pelo desfecho de uma única batalha, cada beligerante punha em campo o maior número possível de soldados. Durante a Guerra da Sucessão da Espanha, em Ramillies (1706), 62 mil soldados britânicos e holandeses enfrentaram um exército francês de 60 mil homens; Oudenarde (1708) presenciou a luta de 85 mil franceses contra 80 mil austríacos, britânicos e holandeses.

O fato de que o número de soldados em campo era considerado vital para obter a vitória levou ao aumento dos efetivos das grandes potências, de certo modo possibilitado pelo crescimento da população europeia. Segundo John Charles Childs, entre 1690 e 1778 a Áustria aumentou seu exército de 50 mil para 200 mil, a Prússia de 39 mil (em 1710) para 160 mil; de 1690 a 1789 o efetivo da Rússia passou de 90 mil soldados para 500 mil. A França foi a exceção, diminuindo de 250 mil em 1710 para 156 mil em 1789, mas deve-se notar que logo em seguida o efetivo de seu exército aumentou vertiginosamente. Quanto à Grã-Bretanha, em 1778 tinha aumentado em apenas 20 mil os 80 mil que alistava em 1690; evidentemente, como ilha e contando com uma eficiente marinha de guerra, sua força de terra era menos importante do que para os países continentais, mas, com a persistência dos conflitos contra a França, era previsto que a tropa efetiva do exército chegasse a 310 mil homens em abril de 1808.

O número de baixas era enorme, e os deficientes cuidados médicos oferecidos aos feridos contribuíam para aumentar o número de mortes. Durante a Guerra dos Sete Anos, alguns regimentos de infantaria prussianos perderam todos os seus soldados três vezes entre 1756 e 1763. Paul W. Schroeder ilustra a mortandade havida no século XVIII ao ressaltar que a proporção entre as mortes em batalhas e a população total da Europa foi cerca de sete vezes maior no século XVIII do que no século XIX.

Uma grande diferença em relação a épocas mais recentes é que a nacionalidade podia nada ter a ver com o lado pelo qual se lutava. Dois dos mais famosos e bem-sucedidos generais da época foram Maurício da Saxônia e Eugênio de Savoia; o primeiro, alemão, serviu a França, enquanto Eugênio, que nasceu na França, servia a Áustria. Durante a Guerra da Sucessão da Espanha, Portugal foi campo de batalha entre tropas franco-espanholas, comandadas pelo inglês Berwick, e um exército anglo-austríaco-português, estando os portugueses sob o comando do holandês Fagel, enquanto o francês Ruvigny comandava os anglo-austríacos.

Batalhas opondo grandes exércitos continuaram a definir as guerras revolucionárias e napoleônicas. Em Borodino (setembro de 1812), as forças francesas e aliadas somavam cerca de 103 mil, e as da Rússia ao redor de 120 mil; em Leipzig (outubro de 1813), numa batalha que durou quatro dias, 203 mil soldados comandados por Napoleão lutaram contra perto de 362 mil homens da Áustria, Polônia, Prússia, Rússia e Suécia; os aliados sofreram cerca de 53 mil baixas (mortos e feridos), enquanto somente uns 80 mil franceses escaparam sem sofrer ferimentos ou cair prisioneiros. O imenso custo em vidas e dinheiro durante mais de um século de guerras praticamente incessantes levou - a bem dizer, forçou - a Europa a optar pela paz em 1815.

O período entre 1792 e o fim do primeiro quartel do século XIX é uma época de lutas e mudanças, antes na Europa e depois no continente americano. As guerras causadas pela transformação da França monarquista em uma França republicana, em 1792, e as guerras do Império Napoleônico tiveram, direta e indiretamente, consequências, como o definitivo fim da hegemonia do exército francês no continente europeu; a relegação da Espanha ao nível das potências de menor influência no cenário continental; o indubitável posicionamento da Grã-Bretanha como a potência mais rica e influente; a independência da maioria das colônias espanholas nas Américas; a independência do Brasil e o consequente empobrecimento de Portugal, que passou do nível de menor potência ao de país praticamente irrelevante; a emergência dos Estados Unidos ao palco universal, com o resultado indeciso de sua guerra contra a Grã-Bretanha em 1812-14, a proclamação da Doutrina Monroe e sua expansão territorial e comercial.

Não obstante, se bem que as mudanças na Europa tivessem sido importantes, em 1815 as grandes potências europeias ainda eram as mesmas do fim do século XVIII: Áustria, França, Grã-Bretanha, Prússia e Rússia. Mais profundas e mais duradouras foram as mudanças ocorridas no continente americano, pois a independência das colônias espanholas e do Brasil resultou em novos países soberanos e na desaparição - com a exceção de Cuba - de grandes e valiosas colônias europeias no hemisfério.

As políticas da Áustria, Prússia e Rússia, que em setembro de 1815 firmaram o tratado da Santa Aliança - na verdade os principais vitoriosos de Waterloo menos a Grã-Bretanha -, eram baseadas na noção de legitimidade, na inviolabilidade do privilégio real, qualquer revolta contra o trono sendo considerada inaceitável; a França, sob a restaurada dinastia Bourbon, acedeu ao tratado naquele mesmo ano, como o fez a Espanha em 1816. A Grã-Bretanha era parte - com a Áustria, Prússia e Rússia - da Quádrupla Aliança, mas se recusou a participar da Santa Aliança, por razões constitucionais e também porque Castlereagh a considerou, em suas palavras, "um exemplo de extremo misticismo e tolice".

Mesmo na Grã-Bretanha, geralmente pragmática, onde o aumento da produção ensejado pela industrialização dava às razões comerciais mais peso do que nos outros países (com a possível exceção dos Estados Unidos), os reis George III e George IV, bem como personagens políticas influentes, opunham-se ao reconhecimento de independências obtidas sem o assentimento do soberano, a seu ver a única autoridade que podia conceder à colônia a possibilidade de separar-se da metrópole.

Para compreender o sentimento das cortes europeias, deve-se ter em mente o choque que tinham sofrido diante dos excessos da Revolução Francesa e de várias iniciativas, ou dos abusos de Napoleão. Reagindo às políticas francesas em relação ao papa e aos Estados da Igreja, a Igreja Católica, influente em grande parte da Europa, tornou-se igualmente inimiga de tudo quanto cheirasse a democracia popular; a defesa de suas propriedades e de seus privilégios, sempre importante, tornou-se ainda mais acerba em face do rude tratamento que lhe tinham infligido a França revolucionária e o Império Napoleônico.

O que se passou depois de 1815 é tratado no Epílogo.