Primeira leitura

Quase antologia

Trecho de Quase antologia

AS FACES DE MACUNAÍMA
Essa tem a ver com os editores de todos os jornais do país. Sempre que o filme Macunaíma é lembrado ou citado incidentalmente, a foto que escolhem para ilustrar a matéria é a de Grande Otelo, que, no filme do Joaquim Pedro de Andrade, ocupa, se tanto, um quinto da história, nascendo negro e ficando branco.

Daí em diante, Macunaíma, na maior parte de suas venturas e desventuras, é interpretado por Paulo José, que nunca é paginado pelos jornais, sendo ele o personagem que vive a maior parte da história do herói sem nenhum caráter.

Nada contra Grande Otelo, grande ator e amigo meu. Alguns de seus últimos trabalhos na TV foram administrados por mim, na finada Rede Manchete, em que eu exercia o estranhíssimo cargo de superintendente de teledramaturgia.

Por osmose, nos suplementos literários que abordam a obra literária de Mário de Andrade, aparecem as fotos do autor e de Grande Otelo - como ilustração oficial do personagem masculino talvez mais famoso de nossa literatura.

Acredito que os editores nada tenham contra Paulo José, um dos melhores atores do cinema e da TV. O problema me parece um erro de avaliação do filme e do livro, achando que o verdadeiro Macunaíma é sua versão negra, quando, na realidade, ele se tornou símbolo e metáfora de nossa falta de caráter em suas andanças como personagem branco. Para usar o lugar-comum dos anos 1980: "inserido no contexto" branco de nossas patifarias e de nossa quebração de cara.

No livro de Mário de Andrade, o negro Macunaíma comete sua mais sensacional façanha quando se transforma em homem branco e, aí sim, passa a ser o verdadeiro herói sem nenhum caráter no qual todos nos reconhecemos.

A troca de fotos é até um lugar-comum dos editores. Quando precisam de uma imagem de Macunaíma (livro ou filme), apanham a pasta de Grande Otelo por preguiça ou deformação cultural e ignorância da história.

E publicam sempre a mesma foto.
2.5.2006

COMO TIRAR UM CAVALO DA CHUVA
Ingredientes: um cavalo; uma chuva.

Modo de preparar: pega-se um cavalo que esteja na chuva e, usando de persuasão ou de força, obriga-se o animal a se dirigir a um lugar seco, onde deverá ficar até que a chuva passe.

Modo de usar: são inúmeras as vantagens de tirar um cavalo da chuva, qualquer cavalo, da chuva, de qualquer chuva. Chuva e cavalo podem se misturar, mas há que tomar cuidado para não prejudicar a natureza dos ingredientes, ficando o cavalo molhado demais e a chuva, que deveria fecundar o solo fazendo nascer o trigo e as flores do campo, molhar inutilmente o cavalo, que não produz flores nem trigo.

Outro mérito de tirar o cavalo da chuva, sobretudo para quem não dispõe de cavalo, mas está sujeito a chuvas e trovoadas, é fazer o que deve ser feito, ou seja, tirar o cavalo da chuva e, se possível, tirar a si mesmo da chuva.

Sabe-se que quem está na chuva é para ser molhado. Recomenda-se tirar o cavalo da chuva em ocasiões especiais, como votações no Congresso, prorrogações de medidas provisórias, reescalonamento de dívidas públicas, cargos e funções.

É preferível tirar o cavalo da chuva, mantendo-o enxuto, a enxugá-lo depois de molhado. Em caso de dúvida, para saber se o cavalo está molhado ou não, aconselha-se um relatório do senador Epitácio Cafeteira.

Convém, contudo, não exagerar e, a pretexto de enxugar o cavalo molhado pela chuva, enxugar os orçamentos da saúde, da educação, dos transportes, da segurança.

Como servir: com o cavalo fora da chuva, pode-se fazer muita coisa ou nada fazer. Em ocasiões mais críticas, o melhor é montá-lo e partir indignado em todas as direções. (Esta crônica é dedicada a todos os cavalos que estão na chuva.)
19.6.2007

LUA DE MEL EM BARILOCHE
Das muitas coisas que não entendo, uma é a mania de os usuários de celular fazerem os outros participarem contra vontade de suas venturas e desventuras. Minha curiosidade pela vida alheia não chega a tanto. Outro dia, num restaurante, em mesa próxima, uma senhora falava com uma amiga que lhe contava detalhes da lua de mel da filha num hotel de Bariloche.

De início, não prestei atenção, mas era impossível não ouvir a história de um casamento que terminou no segundo dia da lua de mel. É bem verdade que só ouvia parte do diálogo, que me pareceu escabroso - minha vizinha de mesa estava indignada; mais do que isso, insultada. Seus comentários, inicialmente, eram de espanto, mas aos poucos se tornaram perplexos e terminaram escandalizados.

A coisa começou com um genérico pesar pelo casamento desfeito.

- Que pena! Nem deram tempo para melhor se conhecerem.

Os comentários foram aumentando em gênero, número e grau. Depois de certo tempo, limitaram-se a exclamações, revelando descrença: "Não, não é possível!", "não acredito!", "não, não me diga!", "o quê?".

Houve um silêncio em que a senhora, olhos arregalados, apenas ouvia o que a outra contava. Durou pouco o silêncio. Aumentando o tom de voz, ela estertorava:

- Não é possível, ó, não, não acredito, o quê??? Por trás?

O restaurante estava cheio. Com o desenvolvimento da conversa, todos fingiam não prestar atenção aos lances nupciais de Bariloche. Não se ouvia o barulho de um talher, os garçons pisavam mansinho.

É bem verdade que, após o último detalhe, a conversa esfriou e logo acabou. Todos voltamos a comer, mas paramos outra vez. Desligado o celular, a senhora ligou-o outra vez. Entrou de sola no assunto:

- Você não imagina o que acabei de saber!
14.8.2007

UM FILHO SEM MÃE
Tinha de acontecer comigo. Em ida banal a uma repartição para revalidar um documento, preenchi um cadastro que me exigia a filiação. Nunca tive problemas nesse quesito. Escrevi o nome de meus pais como sempre os escrevi.


O funcionário que me atendeu tirou de uma pasta outro documento e engrossou:

- Nesta certidão aqui, o nome da senhora sua mãe é Morais, com "i". O senhor declara agora que a senhora sua mãe é Moraes, com "e". Afinal, de quem o senhor é filho?

Respondi, um pouco insultado:

- De Julieta de Moraes Cony. Ou de Julieta de Morais Cony. Para mim, sempre deu na mesma.

- Para o senhor, sim, mas para o Estado, não. Há que decidirmos de quem o senhor é realmente filho para que o documento possa seguir o trâmite legal.

Já tive crises ontológicas a meu respeito e a respeito da humanidade. Quem somos, de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo neste mundo etc. Essa me pegou desprevenido, no contrapé. Passei a vida inteira julgando-me filho de minha mãe, de um velho tronco familiar de Três Rios, no norte fluminense.

De repente, o mundo desaba sobre mim. Não posso provar que sou filho de uma Moraes ou de uma Morais. É como se não fosse filho de mãe alguma, nasci de uma proveta que nem existia no tempo em que vim ao mundo.

Outro dia, relendo Machado de Assis, em homenagem ao badalado centenário de sua morte, dei com aquele político que fez um discurso na Câmara, e os anais daquela sessão registraram sua fala trocando a palavra "dúvida" por "dívida".

O sujeito queria destruir o mundo por causa de um "i" no lugar de um "u". Ameaçou derrubar o governo, acabar com as instituições. Eu não cheguei a tanto, mas confio no novo acordo ortográfico, que me dará a mãe que não tive.
9.10.2008