Primeira leitura

Comunismo para crianças

Trecho de Comunismo para crianças

O QUE É COMUNISMO?
Comunista é a sociedade que elimina todos os males que hoje afligem os seres humanos em uma sociedade capitalista. Existem muitas ideias diferentes sobre o que é comunismo. Porém, se comunismo significa acabar com todos os males das pessoas sob o capitalismo, então a melhor ideia de comunismo é aquela que elimina o maior número possível desses males. É como a cura de uma doença. Se o capitalismo fosse uma doença - coisa que não é -, o melhor remédio do mundo seria um tipo de comunismo que pudesse curar a pessoa completamente, e não apenas parcialmente, um terço ou metade de alguém. É claro que, antes de cair doente, a pessoa em geral se encontrava saudável, e o remédio só faz com que ela volte ao seu estado anterior. Mas esse não é o caso aqui, pois, mesmo antes de o capitalismo existir, as pessoas sofriam, ainda que de outros males. É por esse motivo que a comparação, afinal, não é muito boa. Além disso, embora o comunismo seja um ótimo remédio, ele não serve para tudo, apenas para os males do capitalismo. Quando alguém, por exemplo, está com tosse e coriza e toma um remédio apenas contra a tosse, esta vai embora, mas a coriza fica. O comunismo, portanto, não cura todos os sofrimentos, mas somente os causados pelo capitalismo.

Para entender mesmo o que é comunismo e decidir qual ideia de comunismo é a melhor, é preciso compreender primeiro o que é capitalismo e de que maneira ele causa sofrimento às pessoas.

O QUE É CAPITALISMO?
O capitalismo existe hoje no mundo inteiro e é assim chamado por ser o domínio do capital - o que é diferente do domínio exercido pelos capitalistas ou pela classe capitalista. É verdade que, no mundo capitalista, ainda há pessoas que têm mais poder que outras, mas não existe mais um rei no topo da sociedade que manda em toda gente. Mas, se não são mais as pessoas que mandam nas pessoas, quem é, então, que manda nelas? São as coisas que mandam. É claro que não se deve tomar isso ao pé da letra, porque é óbvio que as coisas não têm tanto poder, menos ainda o poder de dominar uma pessoa, pois, afinal, não passam de coisas.

Além disso, não são todas as coisas que podem dominar as pessoas, mas somente algumas delas, ou melhor, certas coisas bem específicas. Tais coisas não caem do céu e também não desembarcam na Terra em discos voadores para depois saírem atirando nas pessoas com raios laser. São coisas que as próprias pessoas produziram para facilitar suas vidas, prestar-lhes bons serviços e, assim, servir a elas. Com o tempo, porém, as pessoas esquecem que foram elas mesmas que produziram as coisas e passam a trabalhar para elas, as coisas. Podemos imaginar que isso se passa mais ou menos assim: uma pessoa vai até a sua mesa de trabalho e escreve em uma folha de papel: "Beba um copo d'água!"; uma ou duas horas mais tarde, a pessoa volta à mesa e encontra o papel, mas, como não se lembra de que foi ela mesma quem anotou aquilo, julga que tem de fazer o que está escrito.

De início, fica um pouco desconfiada e pergunta a uma amiga: "Devo mesmo beber um copo d'água? Eu nem estou com sede". A amiga, então, responde: "Também não sei, mas aguarde que eu vou verificar". E a amiga vai até a mesa, lê o que está escrito no papel, retorna e diz: "Sim, é isso mesmo: está escrito que você deve tomar um copo de água". Se a pessoa passar várias vezes perto da mesa com o papel, vai acabar tendo uma dor de barriga daquelas. É assim que as pessoas passam a ser dominadas pelas coisas e sofrem por isso.

Isso pode parecer até um pouco estranho, pois como poderia a pessoa esquecer de repente que foi ela quem escreveu aquela frase no papel? Como não iria reconhecer a própria letra? É claro que a realidade é um pouco mais complicada do que o modo como aparece nesse exemplo, pois as pessoas não vivem nem trabalham sozinhas, e sim umas com as outras, em sociedade. De fato, não é uma pessoa apenas que escreve uma frase em um papel, mas muitas delas, juntas. Por isso, é provável que o domínio das coisas talvez possa ser explicado melhor com outro exemplo (no qual também aparece um copo): o do jogo do copo (de novo, um copo!).

Nesse jogo, um grupo de pessoas se instala ao redor de um círculo com letras em cujo centro há um copo. As pessoas colocam a mão ou o dedo no copo e, como todas tremem um pouquinho, o copo começa a se mover bem lentamente, indo de uma letra à outra, como que levado por uma mão invisível. As pessoas não conseguem entender que foram elas mesmas que movimentaram o copo - porque sozinhas não seriam capazes de movimentá-lo apenas com o próprio tremor - e pensam que aquilo só pode ser obra de um espírito que deseja transmitir-lhes mensagens secretas.

Esse exemplo é muito apropriado para esclarecer como funciona a vida no capitalismo. Na verdade, são as próprias pessoas que movem o copo, mas não poderiam fazê-lo sozinhas, somente em grupo. O copo só se move por causa da ação conjunta das pessoas, da colaboração que se estabelece entre elas. Mas esse jogo em conjunto está configurado de tal maneira que as pessoas não percebem que estão colaborando umas com as outras. A ação se dá, por assim dizer, de maneira secreta ou pelas costas das pessoas. Se, em vez disso, elas resolvessem se reunir para refletir juntas sobre o que querem escrever, provavelmente, o resultado seria bem diferente. Pelo menos não haveria dúvidas a respeito de quem escreveu o texto. Do jeito que foi feito, porém, o texto parece ter sido escrito por uma mão invisível e, como as pessoas não conseguem explicar por que isso acontece, atribuem a autoria a uma força desconhecida, a um espírito ou fantasma.

Por aí se vê, então, que não são todas as ações conjuntas, todos os grupos nem todo trabalho que emprestam às coisas um poder especial sobre as pessoas, mas somente uma forma específica de ação conjunta ou de inter-relação. Justamente a movimentação do copo e não a escrita coletiva do texto. Da mesma forma, não são todas as sociedades que se caracterizam pelo poder exercido pelas coisas, apenas a sociedade capitalista. Somente a forma de relacionamento ou de trabalho no capitalismo é que faz com que as coisas possam dominar as pessoas. Então devemos nos perguntar: o que há de tão especial assim no modo de relacionamento das pessoas no capitalismo e o que o distingue dos modos de relacionamento em outras sociedades?

Para responder a essas questões e saber que o capitalismo não existiu desde sempre - o que já é uma grande vantagem -, é melhor examinarmos, antes, como foi que o capitalismo surgiu.