Primeira leitura

Ame Soror

Trecho de O Livro das Mesas

DOMINGO, 11 DE SETEMBRO DE 1853
Delphine de Girardin, sra. Hugo, Victor Hugo, Charles Hugo, François-Victor Hugo, Adèle Hugo, o general Le Flô e sua esposa, o conde Henri de Tréveneuc, amigo do general, e Auguste Vacquerie. (Ata A. V.)

A sra. De Girardin diz: Há alguém? Se houver alguém e este alguém quiser falar conosco, que bata uma vez.
O pé da mesa dá uma batida seca.
— Há alguém! – exclamou a sra. De Girardin. Façam suas perguntas.
Fizemos perguntas e a Mesa respondeu.
Delphine de Girardin pergunta imediatamente: Quem és tu?
A mesa ergue um pé e não o abaixa mais.
A sra. De Girardin insiste: Alguma coisa te incomoda? Em caso afirmativo, dê uma batida; senão, duas.
A mesa bate uma vez.
Sra. De Girardin pergunta: O quê?
Losango.
Formávamos um losango, dos dois lados de uma ponta da mesa grande. Fomos pegar outra mesa, sobre a qual colocamos a pequena. A sra. De Girardin e Charles Hugo posicionam-se na diagonal. A mesa se agita novamente. O general Le Flô pergunta o que ele está pensando nesse instante.
Fidelidade (responde a Mesa).
O general pensava em sua mulher.
Eu não estava convencido, observa Vacquerie, achava tão engenhoso e inteligente responder fidelidade a um marido que pensa na esposa que atribuí a resposta à sra. De Girardin.
Para estar seguro de que não era a sra. De Girardin que agia, Auguste Vacquerie pede para conduzir a mesa junto com Charles, pensa um nome e indaga:
— Em que nome estou pensando?
A mesa gira, se ergue e diz:
Hugo.
Era realmente o nome, confessa Vacquerie, foi nesse momento que comecei a acreditar.
Nos últimos instantes, contudo, a sra. De Girardin parece abalada e pede que não percamos tempo com perguntas pueris. Pressente uma grande aparição. Como a Mesa declarou estar incomodada pela incredulidade de um dos participantes, pedimos-lhe que o identifique. Ela responde: Louro. Com efeito, o sr. de Tréveneuc, muito louro, era o mais incrédulo de todos. A Mesa não exige que ele saia, mas se agita e recusa a responder. Auguste Vacquerie deixa a mesa, e o general Le Flô o substitui ao lado de Charles. Interrogamos a Mesa sobre sua identidade.
Filha.
O general Le Flô não pensava em sua filha. Auguste Vacquerie acrescenta imediatamente:
— Em quem estou pensando?
— Morta.
Todo mundo pensa na filha que Victor Hugo, que ainda não interveio, perdeu.
A sra. De Girardin pergunta: Quem és tu?
Ame sonore.
Quatro pessoas ao redor da mesa haviam perdido uma filha: o general Le Flô, Delphine de Girardin e os irmãos Hugo. A Mesa dissera soror em latim para esclarecer que era irmã de um homem?
— De quem és irmã? – pergunta o general Le Flô.
Dúvida.
— Teu país?
França.
— Tua cidade?
Nenhuma resposta.
Todos nós sentimos a presença da morta, anota Vacquerie, todo mundo chora.
Victor Hugo intervém então pela primeira vez e pergunta:
— És feliz?
Sim.
— Onde estás?
Luz.
— O que é preciso para chegar a ti?
Amar.
A partir desse momento, os nove participantes ficam cada vez mais abalados. A Mesa, como que se sentindo compreendida, não hesita mais e responde imediatamente. A sra. De Girardin pergunta:
— Quem te envia?
Bom Deus.
A sra. De Girardin estimula a Mesa a falar de si mesma: Tens alguma coisa a nos dizer?
Sim.
— O quê?
Sofrei pelo outro mundo.
— Vês o sofrimento dos que te amam? – pergunta, transtornado, Victor Hugo.
Sim.
— Sofrerão muito tempo? – interroga a sra. De Girardin.
Não.
— Voltarão em breve à França?
A Mesa não responde.
Victor Hugo intervém novamente e conduz as perguntas até o fim:
— Ficas contente quando eles misturam teu nome à oração?
Sim.
— Estás sempre junto com eles? Velas por eles?
Sim.
— Eles podem fazer-te voltar?
Não.
— Mas voltarás?
Sim.
— Em breve?
Sim.

NOITE DE 12 PARA 13 DE SETEMBRO DE 1853
(Cópia Juliette Drouet e cópia C. D.)

Victor Hugo: Tens algum comunicado a nos fazer?
Luz.
— Conheces a alma que veio ontem?
Não.
— Sabes que alma esteve aqui?
Sim.
— Como sabes?
Túmulo.
— O que devemos fazer para que ela volte?
Esperança.
Sra. De Girardin: Sabes que aquele que te interroga é um grande poeta?
Sim.
— Conheces suas obras?
Sim.
— Diz o título de uma.
Notre-Dame de Paris.
Victor Hugo: Os espíritos comunicam-se entre si?
Sim.
— És feliz?
Sim.
— Eras um homem?
Não.
— Mulher?
Sim.
— Aqueles a quem amamos estão perto de nós?
Sim.
— Tens um corpo?
Não.
— Os espíritos que vês têm a mesma forma que tinham quando vivos?
Sim.
— A forma da juventude?
Sim.
— Fala o que desejares.
Tudo morre para a vida.
— Há quanto tempo estás morta?
Três anos.
— Teu país?
França.
— Teu nome?
Amélia.
— Com que idade morreste?
28 anos.