Primeira leitura

As farsas do governo

Trecho de O animal econômico

Um dos grandes dramas da situação nacional reside no fato de que o governo, para anestesiar a nação e tentar desviar para o plano externo o núcleo de nossas dificuldades, agiu irresponsavelmente em duas direções igualmente condenáveis: estimulou a crença de que era possível uma política distributiva rápida, capaz de "resgatar nossa dívida social", e criou um problema externo (para esconder os problemas internos), fazendo a nação acreditar que o Fundo Monetário Internacional (FMI) exige "o pagamento dos juros da dívida com o sangue do povo" e que a moratória foi um ato "soberano" e "corajoso".

Ora, é evidente que somos um país pobre, apesar de sermos a oitava economia do mundo em Produto Interno Bruto global. É evidente, também, que a distribuição de renda pessoal deixa muito a desejar. Por outro lado, é claro que essa história de que "somos a 8ª economia do mundo, mas a 46ª em termos de indicadores sociais" é uma balela inventada para fins eleitoreiros. Temos uma renda per capita em torno de 2 mil dólares e nossos indicadores sociais são mais ou menos os relativos aos demais países com renda per capita semelhante.

Frequentemente ouço dizer que eu falei que "primeiro é preciso fazer o bolo crescer para depois distribuir", o que eu não falei, por ser uma solene bobagem dentro de uma economia de mercado. Aliás, o desenvolvimento brasileiro mostra que, quando o bolo cresceu, todos melhoraram, mas uns melhoraram mais do que os outros, o que piora o índice que mede a distribuição de renda, quando comparado com o ideal de uma distribuição igualitária. A maior parte das pessoas pensa que o coeficiente de concentração de renda é diretamente ligado ao nível de bem-estar, o que é um grande equívoco. Para entender isso, suponhamos uma sociedade com apenas dois indivíduos: o indivíduo A, que recebe cem por mês, e o indivíduo B, que recebe mil. Suponhamos que, graças a um efeito qualquer (aumento de produtividade ou outros), o indivíduo A passe a receber 130 em termos reais e o indivíduo B concomitantemente venha a receber 1.500 em termos reais.

O que aconteceu? No segundo momento o indivíduo A tem à sua disposição 30% a mais de bens e serviços do que tinha anteriormente, e o indivíduo B tem à sua disposição 50% a mais de bens e serviços do que tinha. O bem-estar dessa sociedade é maior ou menor? Claramente, por qualquer critério objetivo, a situação melhorou para ambos os indivíduos. Apesar disso, a distância entre as rendas se ampliou! Para poder deduzir que existe uma correlação direta entre a desigualdade da distribuição de renda e o nível de bem-estar é preciso aceitar algumas hipóteses muito discutíveis.

É claro que precisamos alterar a péssima distribuição de renda que temos. Mas é mais claro ainda que não se pode tentar alterá-la à custa de políticas que acabam reduzindo o ritmo de crescimento e, aí sim, empobrecendo a todos.

Outra tolice do governo é a divulgação da ideia de que o FMI exige a recessão. Em 1984 estávamos em um programa do FMI e crescemos 5,7% (no segundo semestre já estávamos crescendo a 7%). A Argentina, dentro de um programa do FMI, cresceu em 1986 quase 6%, o que para eles é um indicador rigorosamente excepcional.

O Brasil já está em um processo recessivo e sem o FMI, o que mostra que não há relação de causa e efeito entre os dois. Na verdade, o FMI é convidado a cooperar com o país quando esse país já está em desequilíbrio avançado e exige políticas corretivas que podem ter como subproduto desagradável a recessão. A cooperação do FMI, aportando recursos externos, torna menos custosa, do ponto de vista social, a política de ajuste, exatamente o oposto do que o governo tem tentado transmitir à nação.

É preciso que todos saibam que o governo resiste não propriamente à política sugerida pelo FMI (porque de uma forma ou de outra ele a está adotando), mas à auditoria do FMI, com a qual teria sido impossível esconder da nação mais de 1 bilhão de dólares de importações não registradas e um déficit que beira 7% do PIB!