Primeira leitura

O que Auschwitz teve de único

Trecho de O espirito do judaísmo

Primeiramente, a Shoah.

Não se trata - e aqui é o pensamento noturno que tem razão - de ficar o tempo todo pensando na Shoah.

Nem, menos ainda, de rebaixar-se opondo argumentos racionais a pessoas que só entendem a linguagem dos babuínos.

Mas e os outros?

Os negacionistas vacilantes?

Aqueles que não dizem: "As câmaras de gás não existiram", e sim: "Que elas tenham existido é uma coisa, mas por que essa religião da lembrança? Essa convivência amistosa com a dor?

E, sobretudo, sobretudo, por que essa nova pretensão de ser o escolhido, essa escolha negativa, essa escolha pelo avesso, é verdade, mas escolha mesmo assim, que leva vocês, judeus, a postularem a condição de um sofrimento ímpar, sem precedentes nem réplicas?".

Pois bem, acredito que é importante falar com essas pessoas.

Acredito que é preciso, com relação a elas, quando nos dirigimos a elas, romper com o discurso oracular que, marcado pelo tom da autoridade, suscita desconfiança - e, no seu lugar, é preciso um discurso tranquilo, ponderado, capaz de expor com calma e precisão aquilo que dá a esse crime a sua dimensão única.

Não é o número de mortos: os soviéticos e seus sequazes produziram uma quantidade quinze vezes maior.

Não é o ritmo, a velocidade da máquina assassina: o genocídio de Ruanda fez quase 1 milhão de mortos em apenas dez semanas, recorde mundial de tempo em matéria de crime, uma contabilidade macabra mas incontestável, um horror inigualável.

Não é nem mesmo a crueldade dos assassinos, sua inumanidade, toda essa literatura sobre os campos que ardia nos lábios dos sobreviventes e que, quando finalmente se decidiu escutá-los, deixou o mundo horrorizado (pois, diga-se de passagem, era este o problema: dizia-se: "Os sobreviventes não falam", mas isso era simplesmente porque as pessoas tapavam os ouvidos quando eles falavam; qualifica-se como "indizível" o que era apenas inaudível para os que incrementavam o ruído interno em seus ouvidos para encobrir a voz que não queriam escutar; falava-se muito no "Inominável", ao mesmo tempo que se proibia simplesmente registrar o nome do crime...): também não se trata disso, não, não é a quantidade de horror que constitui a diferença; pois foi um estupor semelhante que tomou conta de mim, pelo menos comigo aconteceu assim, quando, vinte anos depois de Les Jours de notre mort [Os dias da nossa morte], de David Rousset, recebi os relatos de Soljenitsin, assim como, quase no mesmo momento e gravados em minha memória da mesma forma, os de Arnold J. Toynbee sobre os massacres de civis armênios, esfolados e empalados vivos, trucidados a machadada ou com serras, esquecidos dentro de vagões fechados, maltratados quando saíam dali, mortos de sede e de fome, devorados pelos urubus no meio do deserto, animalizados, crucificados; será possível, pensando nesses casos, e isso para nos atermos a eles, estabelecer qualquer hierarquia em termos de sofrimento e de maldade?

Tampouco se trata do caráter metódico, industrial, daquela selvageria: outros massacres maciços também tiveram essa marca, por exemplo, a integração de doze, e depois dezessete, "administrações" do Gulag ao aparelho produtivo stalinista (extração de ouro, minas de cobre e carvão, escavação do canal do mar Branco...) lembra bastante a de Buchenwald e de Dachau à máquina de guerra nazista.

Quanto ao argumento frequentemente mencionado da intencionalidade, ou seja, de uma vontade criminosa que nem precisou ser estimulada, radicalizada ou ter seu rumo alterado, já que tinha mostrado o seu rosto desde Wansee, também não creio que seja convincente: afinal, as intenções dos Jovens Turcos não eram menos explícitas, e os historiadores do primeiro genocídio do século XX aprenderam a datar (fevereiro de 1915, ou seja, no instante seguinte à tragédia de Sarikamish, quando o Terceiro Exército otomano foi esmagado...) o momento exato em que se tomou a decisão de aniquilar até o último homem todos os membros daquela suposta quinta-coluna, suspeita de colaborar para a queda do Império Otomano; nem eram as dos cambojanos, pois se sabe hoje qual era o verdadeiro sentido de sutis eufemismos do tipo "tratamento especial por dissolução sociológica", ou "reagrupamento sob as árvores", ou "os galhos ruins, nós os podamos"; tampouco as dos partidários do Hutu Power, sobre os quais se reconhece, hoje, que programaram a destruição total das "baratas" tútsis.

Não.

O que Auschwitz teve de excepcional são três características, apenas três - mas únicas.
Para começar, a Shoah foi o único massacre que não queria deixar nenhum resto.

Há massacres que são efetuados como guerras, golpeando-se as lideranças ou visando apenas os pontos fortes (como o de Darfur, onde os civis, embora tenham morrido em grande número, não foram os alvos prioritários do presidente sudanês el-Béchir e de seus cavaleiros janjawid).

Há massacres em que o destino das crianças, por exemplo, depende, em tese, da boa vontade dos assassinos (como nas províncias do Império Turco onde elas não foram exterminadas, e sim deportadas, acabando por morrer, então - embora nem sempre -, ao longo das caminhadas que eram forçadas a fazer pelo deserto da Síria).

Quanto a Holodomor, o massacre pela fome detonado por Stálin na Ucrânia, tinha como objetivo quebrar o nacionalismo de Kiev, destruir sua resistência, mas não, certamente, exterminar todos os ucranianos (o que não impediu, evidentemente, de levar 5 milhões de pessoas à morte, sem muito alarde...).

Desse ponto de vista, a Shoah não conheceu nuances. Homens, mulheres, crianças, velhos inofensivos, incapacitados, enfermos, todos teriam de passar por aquilo. Ao final dessa gigantesca operação cirúrgica de caráter biopolítico, não poderia sobreviver o menor indivíduo capaz de perpetuar a raça maldita. E era tão grande a vontade de aniquilação que até mesmo a memória dos exterminados, sua cultura, sua língua, seus locais de oração, seus livros tinham de ser varridos da superfície da Terra - como se nunca tivessem existido, como se o ser-judeu jamais tivesse sido concebido nem ganhado alguma forma.

Em segundo lugar, a Shoah foi o único genocídio para o qual não havia apelação.

"Matem todos eles", gritavam os que apontavam seus facões para os tútsis de Ruanda. Mas, se um deles conseguia se salvar, se esconder e, numa hipótese milagrosa, chegar a Uganda, a matilha se acalmava e o deixava em paz.

Vamos acabar com o velho mundo, pregavam os Khmers Vermelhos, extinguir todos os seus sinais, suprimir as suas últimas testemunhas e construir o Kampuchea Democrático como uma epifania do novo homem; mas se um intelectual, um homem livre, um portador da memória e da beleza do mundo conseguisse se livrar do esquadrão da morte e, mais uma vez hipoteticamente, cruzasse a fronteira com o vizinho Vietnã, por exemplo - aquilo quase nunca acontecia, a armadilha era quase perfeita e impossível de desmontar, mas a regra era a regra, e se isso porventura acontecesse, essa pessoa não seria perseguida até ser morta.

Quanto ao genocídio dos armênios, que ostenta o privilégio aterrorizante de ter aberto a série sanguinária e de ter também, por meio de Raphael Lemkin, lhe atribuído um nome, parece-me que a Lei Tehcir, de 1915, a chamada Lei da Deportação, dizia, apesar da imensa hipocrisia, que havia um ínfimo e quase impraticável recurso, mas, enfim, um recurso: os genocidas turcos haviam limitado o círculo do inferno às fronteiras do império, e seus janízaros não iam até Marselha, nem mesmo até a Armênia russa, procurar os armênios que, à custa de sofrimentos inauditos, conseguiam escapar de seus perseguidores.

A situação dos judeus, sob Hitler, era diferente. Não havia fronteiras. Nenhum lugar onde se salvar. Era o espaço do império e daquilo que ainda não fazia parte do império, mas que, no delírio nazista, cedo ou tarde acabaria por fazer, destinando-se a ser também judenfrei [livre de judeus]. Nenhum porto, em lugar algum, nenhuma reserva, nem, como se dizia nos tempos bíblicos, a menor cidade-refúgio à entrada da qual a matilha fosse contida. A Europa e, em tese, o mundo inteiro como uma armadilha gigante para o javali judeu, perseguido em uma caçada mundial.

Por fim, a terceira especificidade da Shoah: tratava-se de apagar não só os corpos, mas também seus próprios cadáveres; não só a sua presença no mundo, mas a lembrança dela; apagar o próprio fato de o crime ter acontecido e a possibilidade de constituir uma memória dele.

Poder-se-ia dizer que não houve genocídio no século XX que não tenha sido reproduzido, como uma espécie de sombra, por algum negacionismo. E é verdade. Mas ocorre que a negação surge, em geral, depois de o massacre ter acontecido. No caso do genocídio dos armênios, por exemplo, as provas existem, todas as provas, nem um pouco apagadas pelos criminosos, pois foi nelas - os telegramas oficiais do ministro do Interior, Talaat Pacha, as confidências recolhidas em tempo real pelo embaixador americano Morgenthau, as inúmeras fotografias que circularam imediatamente, os depoimentos rapidamente disponíveis - que se apoiaram as comissões de investigação e depois as cortes marciais que desde 1918 julgaram, condenaram e ordenaram a execução de alguns dos artífices do genocídio.

No caso da Shoah, a negação foi imediata, e incorporada, por assim dizer, ao próprio crime.

Os SS aplicariam uma energia considerável a matar e, no mesmo movimento, apagar os traços de sua matança.

Não conheço equivalente, em nenhum outro genocídio, de algo como a célebre página de Os afogados e os sobreviventes em que Primo Levi transcreve as palavras pronunciadas por um SS em sua chegada ao campo: "Nenhum de vocês ficará para dar seu testemunho e, mesmo que alguns venham a escapar, o mundo não acreditará neles; talvez haja suspeitas, discussões, pesquisas por parte de historiadores, mas não haverá certeza alguma, porque destruiremos as provas destruindo vocês".

Um crime branco. Um crime perfeito. Um crime sem sepultura e, acima de tudo, sem arquivos. Um crime em que a vítima era riscada ao mesmo tempo da lista de vivos e do livro dos mortos. Você não viu nada em Auschwitz. Não, nada, e, aliás, não aconteceu nada ali. E é esse, como disse Bernanos comentando o antissemitismo "desonrado" pela hipérbole hitlerista, o ponto central do famoso texto de Heidegger segundo o qual as "centenas de milhares" de homens "exterminados discretamente" e "em massa" nos "campos de aniquilamento" não "morreram", e sim "pereceram"; foram privados desse "abrigo do ser" que a verdadeira morte pode também constituir; e foram automaticamente transformados em "peças de reposição de um estoque de fabricação de cadáveres". Ignóbil, obviamente. Algo quase impossível de ouvir. Mas que se aproxima da cruel singularidade daquilo que se passou.

Sem restos... Sem apelação... E depois sem mortes, sem mortes de verdade, sem que ninguém tenha vivido a sua própria morte... Sei que é preciso ser prudente e que se trata, aqui, de nuances. Mas o diabo mora nas nuances. E essas são três nuances que fazem da Shoah um crime sem igual. Não há como questionar isso. É possível demonstrá-lo.