Primeira leitura

"Este país não presta"

Trecho de Hello, Brasil! e outros ensaios

No fim de 1988, tenho a impressão de me insinuar no Brasil no contrafluxo. Quanto mais vou decidindo me estabelecer no país, mais me deparo com a estupefação dos amigos brasileiros. Acredito que, na calorosa tentativa de me dissuadir, não haja nenhum, ou quase nenhum, ciúme (no estilo "o Brasil é meu, não venha para cá, seu estrangeiro"): parece mesmo que eles estão antevendo e querendo prevenir a necessária repetição de uma decepção secular.

Nessas tentativas de dissuasão volta assiduamente uma frase: "Este país não presta". É uma frase corriqueira; ela aparece na conversa ocasional com motoristas de táxi e inevitavelmente ressoa nas palavras das próprias pessoas que deveriam ter e têm grande interesse na minha presença no Brasil. Causa-me estranheza ainda a facilidade com que, mesmo em situações que não são extremas, é enunciado - como prova e demonstração - um projeto de emigração: aqui não presta, vamos embora para um lugar que preste.

Finalmente entendo por que essa frase me deixa perplexo cada vez que a ouço. De fato, pouco importam as razões que cada um dá para justificar que o país não presta: a enunciação mesma da frase configura um enigma. Como é possível enunciá-la? De onde será que se pode dizer "este país não presta"? A frase pareceria natural se fosse dita por um estrangeiro, mas, como enunciação dos próprios brasileiros, ela surpreende.

Parece-me que um europeu poderia afirmar que um governo não presta, que a situação econômica não presta ou mesmo que o povo não presta, mas dificilmente ele diria que o seu país não presta. Deve haver alguma razão para que os brasileiros, em relação à própria identidade nacional, se situem em curiosa exclusão interna, que permite articular a frase que me interpela. Essa razão não deve datar de hoje.

"Brasil, ame-o ou deixe-o", propunha a ditadura - frase que também soa estranha aos meus ouvidos. Um fascista europeu teria dito sobre seu país: "Ame-o ou te mato". E nenhum europeu teria encontrado como resposta a famosa frase "o último a sair apague a luz", pois ele antes responderia reivindicando uma filiação que não aceita a alternativa proposta: "Eu sou daqui e não vou a lugar nenhum". A história do Partido Comunista Italiano, durante a primeira década do fascismo, é exemplo disso: havia uma incessante substituição dos quadros do partido, que era clandestino, a cada vez que seus membros eram descobertos. E isso se justificava, antes de mais nada, para afirmar o direito, o dever e a necessidade de permanecer na Itália. Matem-nos, mas não sairemos daqui.

Em suma, algo nessa frase me parece testemunhar um problema de um tegração - se o leitor me permite o neologismo. Não digo um problema de integração, pois não se trata de uma dificuldade em ocultar ou uniformizar as diferenças originárias das diversas etnias. Também não se trata, é evidente, de uma falta qualquer de sentimento patriótico. Trata-se de uma dificuldade relativa ao um - ao qual uma nação refere os seus filhos -, ao significante nacional em sua história e sua significação.

Em outras palavras: se os brasileiros podiam falar de seu país como se fossem estrangeiros, é porque, de alguma forma, "Brasil" - o um das suas diferenças - devia ser algo a mais ou a menos do que um traço identificatório fundador da filiação nacional. Pois tal traço normalmente não se discute, assim como normalmente um sujeito não discute o seu sobrenome.

Mas, diabos, como funciona então esse significante nacional que permite que quem o reivindica para si enuncie a frase "este país não presta"? Encontrei ecos dessa expressão de exclusão interna em formas às vezes extremas de execração ou escárnio nas páginas dos jornais; lembro, por exemplo, de uma reportagem de capa da revista Veja sobre a fuga dos brasileiros para o exterior; outra, inacreditável, da IstoÉ, em que se via na capa o Brasil derretendo e esvaindo-se pelo ralo.

Resistindo ao contrafluxo, imaginei, então, duas figuras brasileiras que pudessem, nos corredores dos aeroportos, lançar-me a frase "este país não presta": o colonizador e o colono.

Essas duas figuras, que desde aquela época não me deixaram e com as quais fui pensando o Brasil, devem ser entendidas como figuras retóricas. E são, na minha leitura, as figuras retóricas dominantes do discurso brasileiro. Elas têm relação com a história, pois certamente é a história da nação que compõe o quadro, a estrutura, dos lugares possíveis de enunciação no Brasil.

Esteja claro que o povo brasileiro não se divide em colonizadores e colonos. Poderíamos, porém, dizer que cada um tem em si um colonizador e um colono, mas esse raciocínio seria ainda psicológico e impreciso. O certo seria dizer que, no discurso de cada brasileiro, seja qual for a sua história ou a sua posição social, parecem falar o colonizador e o colono.