Primeira leitura

Introdução

Trecho de Territórios em conflito

Quem dela se aproxima é impactado imediatamente por seu tamanho: quilômetros de ruas e avenidas, bordeadas por casas, blocos de edifícios, casas e galpões, aqui e ali interrompidas por muros altos e estacionamentos a céu aberto. O movimento das pessoas e objetos que circulam 24 horas por dia é onipresente, gerando fluxos reais e virtuais sobre sua geografia construída.

A serra da Cantareira, com seu pico do Jaraguá, é um dos poucos testemunhos contemporâneos de sítio original: São Paulo de vales, colinas e várzeas irrigados por centenas de rios, nascentes e córregos à beira de um planalto coberto pela Mata Atlântica e pela umidade que vem da serra do Mar. Em 2054, quando a cidade estiver completando quinhentos anos, essa paisagem terá sido transformada sucessivas vezes.

Seu ponto mais alto - o espigão da Paulista - foi escolhido pelos barões do café e capitães da indústria nascente da São Paulo no início do século XX para sua moradia. Meio século depois, sobre ela se instalaram as torres envidraçadas dos anos do milagre econômico, levando o espigão para uma altura ainda mais elevada. Finalmente, a emissão eletrônica de sinais constrói, sobre essas torres altas, antenas iluminadas anunciando uma nova transformação. Hoje esse espigão é o cenário preferencial de manifestações políticas, marchas e protestos, assim como palco onde se desenrola um dos conflitos urbanísticos que marcam a São Paulo contemporânea: a disputa dos pedestres e ciclistas com os carros e caminhões pelo espaço das ruas.

Enquanto isso, os rios, como Tietê e Pinheiros, que antigamente viam seus meandros se espalharem por largas várzeas, transformaram-se em canais de esgoto espremidos entre vias expressas, em que carros, ônibus, caminhões, carretas e motocicletas disputam o espaço a qualquer hora do dia, noite, madrugada. Em certos pontos das margens se veem barracos de madeira e tijolo com varais de roupas penduradas e anúncios de borracheiros, manicures e "vende-se geladinho"; em outros, esqueletos de construções inacabadas ou falidas, ruínas cobertas por inscrições em grafias incompreensíveis ao lado de edifícios profusamente pintados e iluminados. Mais adiante, conjuntos de torres inteligentes, brilhando em aço e vidro, refletem a paisagem malcheirosa. Aqui e ali quaresmeiras, sibipirunas e fícus teimam em criar raízes, rasgando o asfalto e invadindo com seus galhos o caótico emaranhado de fios elétricos.

Com mais de 20 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo é hoje uma das cidades-mundo do planeta. Isso significa que, ultrapassando seus próprios limites físicos - 900 quilômetros quadrados de área urbanizada, em 39 municípios -, a aglomeração urbana atinge com seus tentáculos uma área que vai muito além, alcançando pontos distantes do país, do continente, do mundo. Centro de produção, distribuição, gestão e logística de uma rede de empresas e corporações que atuam em mercados regionais e internacionais, São Paulo é um imenso mercado, turbinado pelo número de pessoas que concentra: moradores, visitantes e "circulantes".

O tamanho dessa cidade e a vastidão dos territórios por ela conformados contêm uma heterogeneidade de circuitos, redes e tribos que a habitam: a cidade de mil povos, capital financeira, cidade conectada no mundo virtual e real das trocas globais, potência econômica do país, berço de movimentos sociais e culturais e lideranças políticas. No entanto, é uma cidade partida, cravada por muros visíveis e invisíveis que a esgarçam em guetos e fortalezas, sitiando-a e transformando de tempos em tempos seus espaços públicos em praças de guerra.

Entrar em São Paulo é estar permanentemente exposto a sua imagem contraditória de grandeza, opulência e miséria, de carroça e carros blindados, de mansão e buraco, de shopping center e barraca de camelô, de food truck e ambulante. Cidade fragmentada, que aparenta não ser fruto da ordem, mas, sim, filha do caos, da competição mais selvagem e desgovernada de projetos individuais de ascensão ou sobrevivência, do sonho de gerações sucessivas de migrantes e imigrantes que vieram em busca das oportunidades distantes e da potência da grande cidade. Em São Paulo, hoje, o futuro da megacidade parece incerto: sobreviverá ao congestionamento e à poluição? Aos alagamentos e à crise hídrica? Reaparecerão os empregos industriais perdidos? Voltará a reinar a paz nas ruas? Implantará serviços públicos de qualidade para todos? Sobreviverão seus espaços públicos? Triunfarão seus espaços comuns?

Para tentar responder a essas questões, é preciso entender como se chegou a esse ponto, reconhecendo que a cidade hoje é produto de milhões de ações individuais e coletivas das gerações que nela investiram seus projetos de vida; mas que, longe de ser caótico, esse processo foi diretamente influenciado por opções de política urbana, tomadas em períodos fundamentais de sua história. Às políticas urbanas que marcaram as sucessivas transformações da cidade corresponderam conflitos, movimentos e insurgências de seus cidadãos.

É sobre esses momentos, os temas, questões e movimentos envolvidos nesses conflitos e decisões que vamos nos debruçar nas próximas páginas. O objetivo é mostrar que a aparente nau desgovernada corresponde na verdade a um território marcado por sucessivos modelos de cidade e gestão urbana implementados para administrar um lugar que, em cem anos (entre 1854 e 1954, data de seu quarto centenário), passou de 30 mil para mais de 2,5 milhões de habitantes, chegando a 10 milhões (20 milhões, se considerarmos a população da Grande São Paulo) nos cinquenta anos seguintes, o que a fez transformar-se na principal metrópole de um país marcado por uma histórica concentração de renda e poder.

Este livro se organiza em três partes. A primeira, "São Paulo", traz uma versão revista, ampliada e atualizada do livro São Paulo, da coleção Folha Explica, publicado pela primeira vez em 2001. Trata-se de uma história urbanística da cidade, que se inicia com a implantação da vila no século XVI em seu sítio original e avança até a metrópole contemporânea. Em cada um dos capítulos abordo um momento decisivo dessa história, em que temas, questões ou políticas emergiram, marcando para sempre o tecido sociopolítico espacial da cidade.

O período que vai da vila bandeirante à construção da cidade cosmopolita, impulsionada pela máquina da cafeicultura e do Partido Republicano Paulista (PRP), é o objeto do primeiro capítulo.

O segundo acompanha a crise dos anos 1920 e a emergência de um modelo político territorial nos anos 1930 que incide sobre o processo de urbanização da cidade até os dias de hoje. O terceiro capítulo, "São Paulo metrópole", reconstrói a lógica política - e urbanística - da conformação metropolitana, abordando o momento em que a cidade se solta dos trilhos, espalhando-se em periferias precárias. Em "São Paulo, na virada do milênio: megacidade global?" e em "A cidade confinada", focalizo a desconstituição da cidade industrial, a emergência do urbanismo dos enclaves fortificados, com a multiplicação de shopping centers e condomínios fechados, assim como a constituição de um novo polo corporativo-financeiro às margens do rio Pinheiros.

A série cronológica se completa com "Crise e mudança na São Paulo do terceiro milênio", que comenta as transformações recentes, bem como os dilemas contemporâneos da cidade, após uma década (2003-13) de intenso crescimento econômico e movimentos importantes de transformação da cultura urbana.

A segunda parte do livro, "Embates na cidade contemporânea", reúne textos curtos publicados na Folha de S.Paulo, no portal Yahoo! e em meu blog, entre 2012 e 2017. Neles, acompanho e comento fatos políticos e urbanísticos vividos pela/na cidade e pelo/no país nesse período, como mobilidade, transporte, moradia, remoções, corrupção, protestos nas ruas, eleições, etnicidade e questões de gênero. São temas que dominaram os debates e geraram controvérsias nos meios de comunicação e redes sociais nos cinco anos cobertos pelos textos.

A terceira e última parte, "São Paulo e a política urbana em três décadas (1986-2017)", traz ensaios sobre a metrópole inéditos em livro ou que fizeram parte de publicações há muito esgotadas. Os textos foram revistos para integrar este volume, mas mantive, propositadamente, os pontos de vista originais do momento em que foram escritos.

Nessa parte, o livro retoma novamente o percurso histórico, dessa vez a partir dos anos 1980, através de um duplo movimento: de um lado trazendo de volta - de forma mais desenvolvida e aprofundada - questões relativas aos diversos "tempos" da cidade, mas também às maneiras como esses temas foram pensados naquele momento por mim e pela geração de urbanistas/ativistas da qual faço parte.

"Territórios negros em São Paulo" foi escrito no final dos anos 1980, quando, no âmbito do renascimento dos movimentos sociais paulistanos, emergia o movimento negro, que levantava a bandeira do combate à discriminação racial como elemento essencial do processo de redemocratização da cidade e do país. O texto lança os temas da etnicidade e, particularmente, da presença negra na cidade, ausentes dos debates de sociologia urbana naquele momento.

"O vínculo perverso: legislação urbana e mercados informais" condensa um enorme esforço de pesquisa e experiência de gestão urbana - registrado no meu livro A cidade e a lei: legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo (1997) - sobre as estratégias de regulação urbanística e seus impactos sobre a cidade. Naquele momento (anos 1990), um esforço de mover a política urbana na direção de uma cidade mais justa estava sendo empreendido em vários fronts e cidades do país. Participei ativamente desse momento/movimento ao longo de toda a década. Esse capítulo e o seguinte, "Novas perspectivas para o velho tema do planejamento da cidade", procuram formular, do ponto de vista conceitual e das políticas de planejamento e controle do uso e ocupação do solo, essas novas direções.

Finalmente, o último ensaio, "Das lutas pela reforma urbana às cidades da Copa do Mundo", escrito enquanto as cidades se preparavam para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014, traz um balanço das transformações e políticas urbanas nas primeiras décadas do terceiro milênio, apontando a frustração em relação à agenda da reforma urbana, que, embora inscrita minuciosamente no ordenamento jurídico, não foi implementada no país.

As três partes do livro refletem as várias direções que meu envolvimento intelectual e político com São Paulo percorreu em quarenta anos de escrita e ativismo. São textos produzidos no âmbito acadêmico, mas também jornalístico, conformados por marcos teóricos ou pelo desafio de desvendar as complexidades da cidade para o leigo, para o iniciante, para o estudante. São textos para conhecer a história e entender o presente, marcados do princípio ao fim por minha paixão por São Paulo, mas também por minha crença na possibilidade de transformar essa cidade-mundo.