Primeira leitura

Prólogo "Camaradas!"

Trecho de Do czarismo ao comunismo

O dia é 24 de outubro de 1917. São oito horas da noite. A cidade é Petrogrado, antiga São Petersburgo, capital da Rússia. Dois homens caminham em silêncio, envoltos em pesados casacos. Uma fumaça branca emana continuamente de suas bocas. Seu destino é o Instituto Smolny, no subúrbio da cidade. Anteriormente uma escola para as filhas da nobreza, o prédio foi convertido em centro administrativo e abriga a sede do Soviete de Petrogrado. A partir de amanhã, abrigará o Segundo Congresso Nacional de sovietes.

O homem alto e forte, de barba cerrada, se chama Rakhva. Ele está ali como guarda-costas. O outro é baixo e está toscamente disfarçado: raspou a barba, usa uma boina que lhe cobre a careca e tem um lenço amarrado em volta do rosto, como se sofresse de dor de dente. Seu nome é Vladimir, filho de Ilya. Sua mãe o chamava 
de Volodya. Seus amigos o chamam de Lênin.

Os dois pegam carona em um bonde que passa vazio e descem na rua Botkin, de onde já podem avistar os Guardas Vermelhos, encarregados de controlar a passagem pela ponte Liteiyny. Passam sem dificuldades pelos primeiros guardas, mas do outro lado da ponte há um destacamento de cadetes que, conforme as ordens do primeiro-ministro, Alexander Kerensky, estão exigindo ver autorizações. Essa ponte simboliza a situação atual da Rússia, dividida entre dois poderes: de um lado, o poder oficial do governo; do outro, o poder vermelho dos sovietes.

No dia anterior, o governo tomara medidas de precaução por toda a cidade. Jornais bolcheviques haviam sido fechados; ordens de prisão, emitidas para os líderes do Comitê Militar Revolucionário, braço armado do Soviete de Petrogrado; tropas de cadetes leais ao governo haviam se posicionado em pontos estratégicos pela cidade.

Rakhva e Lênin atravessam a ponte. Eles têm apenas um par de cartões de autorização muito mal forjados, nos quais os nomes originais foram apagados e substituídos. A operação fora feita às pressas e a tinta dos nomes está borrada.

Um grupo de trabalhadores bate boca com os cadetes. Exigem passar, ainda que não tenham autorizações. Os cadetes replicam que apenas o quartel-general pode fornecê-las. Aproveitando a confusão, nossos dois homens furam o bloqueio, discretamente. Quando começam a se afastar, ouvem alguém gritar: "Alto!".

Rakhva se volta, segurando um revólver em cada mão por dentro dos bolsos do casaco. Está preparado para matar e morrer, mas não deseja chamar atenção com um tiroteio. Dois cadetes se aproximam. Mantendo um dedo no gatilho das armas em cada lado do corpo, Rakhva os distrai com alguma conversa fiada, enquanto Lênin se afasta sem olhar para trás. Os cadetes acabam desistindo da discussão com aqueles dois, que tomam por mendigos.

Nas portas do Instituto Smolny, novo controle de autorizações e nova aglomeração de descontentes. Membros do Soviete estão sendo barrados porque apresentam passes antigos, da cor errada. Exasperados, argumentam que têm direito de entrar ali. O imponente Rakhva, que conseguiu alcançar seu chefe, toma a liderança dos reclamantes, instigando-os a entrar no local à força. Ele é convincente, e os inspetores acabam sendo empurrados para o lado. Uma vez lá dentro, Lênin e Rakhva se separam.

Lênin procura se esconder e permanecer incógnito. Isso não é difícil: o Smolny está em febril atividade e ninguém repara nele. Centenas de delegados aguardam o início do grande congresso. O ar está impregnado da fumaça dos charutos, o chão range continuamente sob as botas apressadas, há lixo por toda parte, em cada uma das salas se reúnem diferentes grupos que discutem os posicionamentos que pretendem defender em breve. Ninguém tem a menor dúvida de que o governo de Kerensky está por um fio e que as decisões do dia seguinte definirão o futuro da Rússia.

Durante a noite, membros do Comitê Militar Revolucionário se espalham pela cidade e, pacificamente, tomam o lugar dos cadetes. Pontes, estações ferroviárias, estabelecimentos bancários, repartições telegráficas, até o quartel-general do Estado-Maior passa para o controle bolchevique sem troca de tiros. Pela manhã, começam a cercar o Palácio de Inverno, sede do governo provisório. O poder já está trocando de mãos, sem que o povo russo se dê conta. A vida ainda segue normalmente na capital.

Às duas e meia da tarde do dia 25, é convocada uma reunião de emergência do Soviete de Petrogrado, realizada no salão central do Smolny. Quem toma a palavra é o presidente do Soviete, um homem muito magro, de bigode, usando óculos redondos. Seu nome é Leon Trótski. A mensagem que ele tem a dar é simples: "O governo Kerensky foi derrubado. Vários ministros foram presos". Ouvem-se aplausos e gritaria.

A seguir, Trótski anuncia que é hora de um governo socialista assumir o poder e que um pronunciamento será feito por Lênin. Quando sobe ao palco o líder bolchevique, que estivera escondido por quatro meses desde que voltara clandestinamente do exílio, os aplausos são ensurdecedores e duram vários minutos. Seu discurso é de triunfo: "Camaradas! A revolução dos trabalhadores e dos camponeses, sobre cuja necessidade os bolcheviques vêm falando há tanto tempo, foi realizada".

Tanto a fala de Trótski como a de Lênin são mentirosas. O governo não foi derrubado, nenhum ministro foi preso e a revolução não foi realizada. Mas os dois líderes acreditam que a tomada do poder é certa e iminente (eles não sabem, mas Kerensky havia deixado a cidade pela manhã, em busca de tropas leais dispostas a marchar sobre a capital).

Os rumores incessantes sobre a tomada do Palácio de Inverno e a queda do governo deixam os demais delegados desorientados. O início do congresso estava marcado para as duas da tarde, mas fora adiado. Ninguém sabe dizer exatamente qual a real situação política do país. O próprio Lênin passa a tarde exigindo notícias. Pergunta: "E o Palácio? Ainda não foi tomado?" e "Por que está demorando tanto?".

Seguros da vitória, os bolcheviques já discutem a formação de seu futuro governo. O título de "ministro", usado até então, é descartado. Trótski sugere "comissário", de inspiração jacobina, e Lênin concorda. Os ministros serão conhecidos como "comissários do povo". Lênin sugere que Trótski seja o presidente do Conselho de Comissários, enquanto ele mesmo permaneceria apenas como líder do Partido Bolchevique. Trótski não tem bom trânsito entre os bolcheviques e não aceita. Lênin se compromete então a ser o presidente dos comissários, enquanto Trótski ficará com o cargo de comissário do Exterior. O camarada Josef Stálin é nomeado comissário de Nacionalidades e a camarada Alexandra Kollontai assume o Comissariado de Assistência Social (será a primeira mulher da história a assumir um ministério).

Às nove da noite, um poderoso tiro de canhão ressoa pela cidade. É o navio de guerra Aurora, que, do rio Neva, atira contra o Palácio de Inverno (o tiro é na verdade de pólvora seca, destinado a produzir apenas efeito moral). Uma hora depois, mais dois tiros de canhão. Agora é a Fortaleza de Pedro e Paulo que atira contra o palácio. Às dez e meia da noite, finalmente tem início o Segundo Congresso de sovietes. A primeira medida é formar o presidium: um conjunto de delegados que atuam como presidentes do Congresso. São eleitos catorze bolcheviques, sete socialistas-revolucionários, três mencheviques, um internacionalista e um representante da Ucrânia. Quando sobem ao palco, nova trovoada de palmas. Lev Kamenev, um dos representantes bolcheviques, anuncia a ordem do dia: 1) Organização do poder; 2) Guerra e paz; 3) Assembleia constitucional.

Julius Martov, respeitado líder menchevique, imediatamente toma a palavra e avisa: "É necessário discutir em primeiro lugar uma solução pacífica para essa crise. [...] Neste momento, antes do começo do Congresso de sovietes, a questão do poder está sendo resolvida por meio de um golpe militar organizado por apenas um dos partidos revolucionários". Naturalmente, ele se refere aos bolcheviques. Boa parte da audiência o aplaude. Como para enfatizar suas palavras, entra pelas janelas o som de tiros.

Depois de Martov, um homem chamado Kharash faz um discurso parecido: "Os hipócritas políticos que controlam este congresso nos disseram que precisamos resolver a questão do poder, mas ela está sendo resolvida pelas nossas costas, antes que o congresso comece! [...] Golpes estão sendo lançados contra o Palácio de Inverno e são esses golpes que vão colocar os pregos no caixão do partido político que arriscou essa aventura!".

Discursos se seguem, acusando os bolcheviques de traição e de golpe. Kuchin, antigo presidente do Soviete de Moscou, afirma: "O complô militar dos bolcheviques [...] joga o país numa guerra intestina, mina a Assembleia Constituinte, ameaça o front com uma catástrofe e leva ao triunfo da contrarrevolução". Todos que desejam falar precisam gritar acima do ruído da multidão (há mais de seiscentos delegados presentes, dos quais cerca da metade é de bolcheviques).

Trótski, o principal orador bolchevique, afirma que o que aconteceu foi uma insurreição popular e não um golpe. Segundo ele, os bolcheviques apenas deram organização à "energia revolucionária dos operários e soldados de Petrogrado". Aos que ainda exigem acordos pacíficos, ele pergunta: "Acordo com quem? [...] Não há mais ninguém". (Anos mais tarde, Trótski resumiria da seguinte forma os discursos de oposição aos bolcheviques: "Um após outro, os representantes da direita sobem à tribuna. Perderam as paróquias e as igrejas, mas conservaram os campanários; apressam-se em, pela última vez, repicar os sinos rachados".)

Vários mencheviques e socialistas-revolucionários anunciam que, diante da iniciativa bolchevique de tomar o poder de forma unilateral, não reconhecem mais a autoridade daquele congresso e que estão se retirando. O delegado dos sociais-democratas judeus grita: "Decidimos perecer junto com o governo provisório! Desarmados, exporemos nossos peitos às metralhadoras dos terroristas" - e é calado por uma torrente de xingamentos e ameaças. Martov intervém novamente, pedindo que se tente evitar uma guerra civil e que seja formado um governo de coalizão. Trótski desdenha da proposta e cria uma expressão que ficará imortalizada: "Seu papel aqui acabou! Seu lugar é a lata de lixo da história!". Kamenev ainda pede que todos fiquem em seus lugares, mas mais de cinquenta delegados se retiram. Os bolcheviques assumem a maioria do congresso.

As horas se passam em meio aos discursos. Somente às três da manhã do dia 26 é que chega uma notícia concreta: o Palácio de Inverno foi tomado e vários ministros foram presos. Dessa vez, é mesmo verdade. Kamenev anuncia os novos fatos para os delegados. Outra leva de mencheviques irritados deixa o congresso. Um deles se revolta com a prisão dos ministros socialistas e grita: "Sabiam que quatro camaradas que arriscaram suas vidas lutando contra a tirania do czar foram jogados na prisão de Pedro e Paulo - a tumba histórica da liberdade?". Ainda assim, a partida dos mencheviques é saudada pelos restantes com ironia: "Mas ainda estão aqui? Não tinham ido embora?".

Às cinco da manhã, chega um telegrama do 12º Exército, cumprimentando o Congresso de sovietes e anunciando a criação de seu próprio Comitê Militar Revolucionário, que retirou o comando das mãos dos oficiais. A notícia é recebida com festa, gritos e abraços. Uma hora depois, Kamenev declara encerrada a primeira sessão do congresso.

Lá fora, amanhece um dia cinzento e frio. Em meio ao caos, com o Palácio de Inverno invadido, tiros soando pelas ruas, Kerensky em fuga, mencheviques na oposição, uma guerra mundial em andamento, os bolcheviques começam a organizar o primeiro governo comunista do mundo.