Primeira leitura

Sonhos no Terceiro Reich:
A origem da ideia

Trecho de Sonhos no Terceiro Reich

No terceiro dia após a ascensão de Hitler ao poder, o senhor S., de sessenta anos, dono de uma fábrica de porte médio, sonhou que era moralmente despedaçado, porém mantinha-se fisicamente intacto. O que mais tarde cientistas políticos, sociólogos e médicos definiriam em suas análises como a essência e o resultado da dominação totalitária sobre as pessoas foi, em breve sonho, apresentado ao senhor S. de maneira precisa e sutil como ele não conseguiria vislumbrar acordado. Eis o seu sonho:

"Goebbels chega à minha fábrica. Manda os funcionários se alinharem em duas filas, uma à direita, outra à esquerda. Eu devo ficar entre elas e fazer a saudação a Hitler com o braço. Levo cerca de meia hora para levantar o braço apenas alguns milímetros. Goebbels observa meu esforço como se assistisse a um espetáculo, sem expressar nem aprovação nem desagrado. Quando finalmente consigo erguer o braço até o fim, ele diz apenas seis palavras: 'Eu não desejo a sua saudação'. Daí vira-se e vai na direção da porta de saída. Eu fico exposto daquela maneira em minha própria fábrica, entre meus próprios trabalhadores, com o braço levantado. Fisicamente, só posso ficar assim. Então fixo o olhar no pé torto de Goebbels, enquanto ele se retira, mancando. E permaneço nessa mesma posição até acordar."

O senhor S. era um homem correto, confiante, quase prepotente. O valor e o sentido de sua longa vida eram a fábrica que possuía, na qual ele, um social-democrata, empregava havia vinte anos alguns velhos correligionários. Podemos chamar sinteticamente de "tortura mental" o que lhe foi imposto no sonho - e também o que eu, espontaneamente, fiz com ele, quando me contou seu sonho, em 1933, poucas semanas depois de tê-lo tido. Mas, ao analisarmos agora o sonho desse homem, com olhar retrospectivo e afiado, em busca dos conceitos de autoalienação, desenraizamento, isolamento, perda de identidade e interrupção da continuidade da existência (noções que hoje ameaçam entrar no vocabulário cotidiano e que dão margem a tanta mitologização), encontramos todos esses conceitos em imagens claras, sonambulamente claras. Ele precisou rebaixar-se e depreciar-se em sua fábrica, com a qual se identificava; precisou fazer isso na frente de seus funcionários, em relação aos quais se sentia como um pai, um senhor - o sentimento dominante de sua vida -, e com os quais também dividia suas convicções políticas. Isso o faz perder o chão, rouba-lhe a identidade e a continuidade de sua existência. Torna-o um estranho a si mesmo, na medida em que o isola não só dos fatos de sua vida, mas também de seu próprio caráter, que perde a autenticidade.

Aqui, portanto, um homem sonha com fenômenos político-psicológicos diretamente relacionados à sua existência - aqueles dias, durante a "tomada do poder", um acontecimento político do momento. Sonha de forma tão exata que traz até duas formas de alienação em relação ao mundo que o cerca e a si próprio, frequentemente equiparadas ou confundidas. E chega a uma conclusão precisa: a de que sua tentativa de alinhamento sob o olhar de todos, sua vergonha pública, se revela apenas como rito de iniciação ao mundo totalitário, como artifício político, como experiência humana fria e cínica por parte do poder do Estado, que tem como objetivo acabar com o livre-arbítrio. 
O fato de ele ser destruído sem hesitação - e também em vão - faz com que esse sonho se torne uma parábola perfeita da fabricação do homem totalmente assujeitado. Quando simplesmente está lá, incapaz de abaixar o braço, olhando malevolamente para o pé torto da autoridade a fim de se manter erguido, ele mesmo está sendo demolido de forma metódica e com os meios mais modernos, como uma casa antiga que precisa dar lugar a outra, sob nova ordem. O que acontece com ele é realmente triste, mas não uma tragédia, e tem um lado cômico; não se trata de um destino individual, mas de um acontecimento típico no decorrer do processo de transformação nele efetuado: ele não se tornou um não herói, mas uma não pessoa.

Esse sonho perseguiu o dono da fábrica, tendo se repetido com frequência, cada vez acrescido de novas particularidades humilhantes: "No esforço de levantar o braço, o suor corre sobre minha face e se parece com lágrimas, como se eu chorasse diante de Goebbels"; "procuro consolo no rosto da minha gente e não encontro nem troça nem desprezo, apenas vazio". Certa vez, os modos de expressão de seu sonho foram fulminantemente claros, quase panfletários: ao tentar, durante meia hora, levantar o braço, sua coluna vertebral se rompeu.

Não é possível concluir se o senhor S. se tornou um homem partido por causa de um sonho ou se o que aconteceu foi o contrário, se ele teve tal sonho porque era um homem partido. Ele continuou a ser uma pessoa livre, relativamente corajosa, mesmo sofrendo com a situação, e não teve, por muito tempo, dificuldades em sua fábrica. No entanto, o sonho - que, mesmo se se repetia com frequência, não era uma forma de fuga para o mundo patológico das representações obsessivas, mas uma expressão da violência que acabava de se instaurar e o cercava, e cujos fenômenos básicos ele não conhecia, mas dos quais suspeitava e sobre os quais refletia logicamente no sonho - o afetou profundamente ou, nas suas palavras, marcou-o como "um entalhe". Quando, durante uma discussão política, ele me contou a respeito de seu sonho, seu rosto ficou vermelho e sua voz, trêmula.

Outra testemunha de sonhos desse tipo e de seus efeitos sobre quem os tem é Paul Tillich, que os sonhou durante meses, depois de deixar a Alemanha em 1933. "Acordei com a sensação de que toda a nossa existência estava sendo transformada. Durante a vigília, acreditava que poderíamos escapar do pior, mas meu subconsciente sabia bem mais."

O sonho do senhor S. - como deveríamos chamá-lo: "O sonho do braço levantado", "O sonho da transformação do homem"? -, que parecia vir diretamente da oficina do regime totalitário onde é produzido o mecanismo de seu funcionamento, consolidou em mim uma ideia que já havia tido brevemente: a de que sonhos como esse não deveriam se perder. Caso o regime, como um fenômeno da época, viesse a ser julgado algum dia, esses sonhos poderiam ser usados como provas, pois pareciam estar repletos de informações sobre os afetos e os motivos das pessoas quando acionadas, como pequenas rodas, ao mecanismo totalitário. Quem resolve escrever um diário o faz de propósito: a pessoa dá forma às ideias, ilumina-as ou as encobre ao redigir. Mas sonhos desse tipo, parecidos com diários noturnos, por um lado, pareciam registrar minuciosamente, como sismógrafos, o efeito, no interior da pessoa, de acontecimentos políticos externos; por outro, derivavam de uma atividade psíquica involuntária. Dessa forma, sonhos poderiam ajudar a interpretar a estrutura de uma realidade prestes a se tornar um pesadelo.

Comecei, então, a coletar sonhos ditados pela ditadura. A tarefa não foi muito fácil, pois alguns tinham medo de contar o que sonhavam; algumas vezes até deparei com o sonho "é proibido sonhar, mas eu sonho", expresso quase do mesmo modo uma meia dúzia de vezes.

Perguntei às pessoas do meu meio sobre seus sonhos. Tive dificuldade de achar gente que se beneficiasse do regime ou bajuladores entusiasmados; de todo modo, suas reações íntimas não seriam significativas para meu projeto. Dirigi minhas perguntas à costureira, ao vizinho, à tia, ao leiteiro, ao amigo, quase sempre sem revelar a finalidade de meu trabalho, pois queria, se possível, respostas não dissimuladas.

Com frequência, meu sonho-modelo, o do fabricante, levava os mais hesitantes a falarem. Com vários deles havia acontecido algo semelhante. Haviam tido um sonho sobre os eventos políticos daquela época que os marcara profundamente e que compreenderam sem dificuldade. Outros eram mais ingênuos e não estavam de todo conscientes do significado de seu sonho. A compreensão e a descrição do sonho também dependiam, naturalmente, da inteligência e do nível de formação de cada um. Porém, quer se tratasse de uma jovem ou de um velho, quer se tratasse de um operário ou de um universitário - apesar de suas diferentes capacidades de expressão e de memória -, notava-se que seus sonhos tornavam manifestas relações entre o regime totalitário e as pessoas que ainda não haviam sido formuladas naquela época, como no caso do sonho do fabricante, em que está presente o fenômeno da demolição do indivíduo.