Primeira leitura

A modernidade vende

Trecho de São Paulo nas alturas

Com 8,2 metros de altura, os três pilares em forma de "v" na entrada do edifício-galeria Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, impressionavam os transeuntes. Além de servirem de sustentação ao prédio, eles devassavam o térreo de um sinuoso corredor, imponente e arejado, com trinta lojas. O contraste com os vizinhos mais baixos, de térreos fechados e muros repousados no chão, fazia o Califórnia parecer uma nave exótica na apinhada rua do centro de São Paulo que exibia as vitrines mais chiques da cidade.

A fachada desse edifício comercial também destoava do que havia nos arredores: em vez dos adornos afrancesados dos antiquados vizinhos, o Califórnia tinha de ponta a ponta quebra-sóis de concreto horizontais repletos de furos, que ao mesmo tempo protegiam contra o sol e deixavam entrar nas salas fachos controlados de luz. Nem todo mundo gostava da modernidade de concreto, mas, naquela época novidadeira, era programa obrigatório conferir as primeiras curvas de Oscar Niemeyer na Pauliceia. O passado estava definitivamente fora de moda.

A galeria no térreo foi aberta em novembro de 1953, quando os escritórios do edifício ainda passavam pelos últimos retoques. A cidade tinha pressa, e o Califórnia logo virou um ímã para os modernos. Duas das primeiras galerias de arte da capital se instalaram ali, a Martin Jules e a Sete de Abril. A Livraria Triângulo abrigava concorridos lançamentos, como o da revista mensal de cinema e teatro Sequência, editada pelo futuro diretor Luiz Sérgio Person. No 12º andar, havia aulas de design e de moda no Instituto Paulista de Desenho Industrial, criado pelo Museu de Arte Moderna (MAM) e pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Eventos culturais de todo tipo espalhavam-se pelos corredores do Califórnia, desde a Feira de Arte do Clube dos Artistas e Amigos da Arte à exposição de fotos e pôsteres de cinema do estúdio hollywoodiano Metro Goldwyn Mayer. Para decorar a lateral da galeria, onde ficava a rampa de acesso ao cinema no subsolo, foi instalado um raro mural abstrato de Candido Portinari, com 250 m2 de pastilhas.

A galeria do prédio, protegida do sol e da chuva, também servia de refúgio e passagem entre calçadas, sempre lotadas, de dia e de noite. O sambista Adoniran Barbosa, filho de imigrantes italianos, vestido de maneira impecável, de chapéu e gravata-borboleta, era habitué da barbearia da galeria. Não só artistas, mas também políticos influentes frequentavam o Califórnia, especialmente após a abertura do estúdio Magisom, do radialista Gilberto Martins, onde eram gravados alguns dos mais populares jingles do rádio. Foi no Magisom que João Gilberto cantou para um comercial de trinta segundos do sabonete Lux e Jânio Quadros conferiu a gravação do famoso jingle de sua campanha presidencial, em 1960: "Varre, varre, vassourinha/ Varre, varre a bandalheira/ Que o povo já tá cansado/ De sofrer dessa maneira".

Com entrada por duas ruas, Barão de Itapetininga e Dom José de Barros, o prédio tinha forma de "l" e treze andares. Abrigava 198 salas comerciais. Em cada andar, havia dezesseis salas, sendo quatro delas com vista para a Barão, duas para a Dom José e dez para o interior da quadra - o terreno se alargava no vértice do "l". Para combater a monotonia de quem teria como panorama apenas o vão do prédio nos fundos, Niemeyer fez a gentileza de criar um jardim suspenso em um pátio interno, decorado com um mural de seu principal assistente na cidade, o arquiteto e artista plástico Carlos Alberto Cerqueira Lemos.

"Era o prédio mais moderno da rua mais chique de São Paulo. Você encontrava gente famosa tomando cafezinho, pois poucos andavam de carro. Mais ou menos como ainda acontece em Nova York", recorda o publicitário Roberto Duailibi, que começou a trabalhar no edifício recém-inaugurado como redator da agência Companhia de Incremento de Negócios (CIN). Estudava publicidade a uma quadra dali, no Instituto de Arte Contemporânea, a escola de economia criativa dentro do Masp, "com cadeiras de jacarandá e couro desenhadas pela Lina Bo Bardi". Como a portaria do Califórnia ficava aberta 24 horas, alguns escritórios eram usados à noite pelos jovens redatores como garçonnières, em uma época pré-motéis. Alguns universitários chegavam a plantar maconha e fumar tranquilamente encostados nas janelas.

O entorno do Califórnia, porém, era mais careta. Na frente, o edifício Paz, onde ficava a Confeitaria Vienense, tinha apenas quatro andares, em estilo neoclássico com capitéis. Com quarenta anos de existência, já era uma relíquia na cidade que mudava de feição a cada década. Em uma ponta da rua, ficavam o eclético Theatro Municipal e o art déco Mappin; na outra ponta, na praça da República, várias construções neoclássicas, como o Colégio Caetano de Campos, o edifício São Luiz e as torres Santa Virgília, Santa Regina e Santa Rita, todos de visual passadista. Quando o prédio de Niemeyer começou a ser erguido, havia um único grande edifício moderno em todo o centro de São Paulo, o Esther, a meia quadra dali, e um outro, o CBI-Esplanada, no Anhangabaú, ainda em construção. Nenhum dos dois, entretanto, oferecia a longa passarela pública do Califórnia.

Aquela Pauliceia com ambições nova-iorquinas tinha festejado havia pouco, em 1947, a inauguração da nova sede do Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, uma torre inspirada no Empire State. O banco - aberto em 1909 com capitais franceses para crédito agrícola e estatizado pelo governador Altino Arantes em 1919 - apostou nos anos 1930 em uma construção de impacto. Com 35 andares, foi o prédio mais alto de São Paulo por quase dezoito anos. Mas seu estilo art déco já estava ultrapassado quando o prédio foi entregue, depois de oito anos de construção (o Empire State original, de 1931, levou apenas um ano para ser construído).

No início de 1951, quando começaram as vendas das unidades do Califórnia, Niemeyer foi transformado em garoto-propaganda nos anúncios classificados. O arquiteto já era incensado em publicações internacionais por causa de um conjunto de trabalhos muito bem-sucedidos: em 1936, o vanguardista edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, coprojetado por ele quando tinha apenas 29 anos; entre 1940 e 1942, o projeto para o bairro modernista da Pampulha, em Belo Horizonte, para o prefeito nomeado por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek; e no final de 1952, a sede da ONU, que o consagrou mundialmente. Naquele momento, seu nome começava a circular fora dos ambientes arquitetônicos e a se tornar uma marca. Cinco anos depois, seria escolhido pelo futuro presidente Kubitschek para criar os edifícios de Brasília.