Primeira leitura

Alerta

Trecho de Marketing existencial

Este não é um livro sobre marketing. É um livro sobre a existência. E seu título não é um truque de marketing: é a constatação de uma nova forma de psicologia do contemporâneo. Pode mesmo ser considerado um alerta. Ou um diagnóstico irreversível.

O personagem principal deste livro é o self consumidor de significados - já explico melhor quem é. Você e eu somos parte dele - a menos que você seja uma pessoa fora do mercado de bens invisíveis. Se for pobre, provavelmente estará a princípio fora desse mercado, mas logo encontrará seu lugar ao sol. Espero ajudá-lo com este livro, pois, no século XXI, quem não consumir bens de significado estará fora do mercado afetivo, profissional e espiritual. O consumo de bens invisíveis é o futuro de parte da vindoura sociedade de mercado.

Assim sendo, este é um livro sobre a relação entre a existência humana e o consumo no século XXI. Por isso, você não encontrará aqui uma linha sequer sobre a ciência do marketing. Não vou, de modo algum, ajudá-lo a ser mais feliz. Na verdade, não estou preocupado em fazê-lo mais feliz. Minha intenção é pensar, junto com você, essa disciplina nova, situada entre a psicologia pragmática de resultados (entre uma psicoterapia comportamental breve e uma cognitiva breve) e a chamada filosofia da existência, ou "existencialismo", como ficou mais conhecida a partir do final da Segunda Guerra.

De um lado, um olhar muito contemporâneo, de outro, algumas das questões mais profundas da filosofia e da sociologia. Começaremos por estas, para deixar tudo mais claro. Após uma primeira parte dedicada aos fundamentos da nova disciplina, tratarei de alguns de seus produtos. Na terceira e última parte, discutirei possíveis impasses ou desafios mais consistentes para essa disciplina.

São verdadeiros desafios, que aumentarão ainda mais a paixão dos que se dedicarem ao marketing existencial como modo de fazer filosofia e ciências humanas aplicadas no mundo atual.

Você pode se perguntar o que vem a ser o marketing existencial. Bom. Não vou lhe dizer aqui, você terá de ler o livro para saber. Às vezes, certa imprecisão é o que garante a experiência do conhecimento, e não o contrário. Mas, num gesto de generosidade, posso adiantar uma dica. Marketing existencial é uma disciplina que, partindo de elementos das ciências humanas, aprofundará a produção de bens centrados na busca de sentido para a vida.

Para isso, o marketing existencial terá que manipular de modo mais detido elementos das próprias ciências humanas. Homens e mulheres estão cada vez mais confusos, insatisfeitos e solitários, e o marketing existencial lhes dirá que devem viajar - em vez de pensar na mãe e no passado -, que um tipo de comida dá a eles a plenitude de ser, que a roupa veste a alma, e não apenas o corpo. Dirá, enfim, que o verdadeiro valor de um produto é invisível, e não meramente material. Tocamos aqui a ânsia espiritual contemporânea perdida em meio à sociedade do cartão de crédito.

E então chegamos a mais uma questão terminológica. Você deve estar se perguntando se bens invisíveis e bens de significado (e produtos de significado) são a mesma coisa ou qual a diferença entre eles. Isso eu posso lhe dizer desde já: são a mesma coisa, são sinônimos. Quando digo bens invisíveis, estou apenas lembrando a você que significado é algo invisível, imaterial, que não se pega com a mão, apesar de depender, para existir, de uma realidade material. O sentido da busca interior em uma viagem depende de você... viajar para algum lugar. Por outro lado, um bem é algo produzido, por isso usarei "bem" e "produto" como sinônimos. Assim sendo, às vezes escreverei bens invisíveis, às vezes, bens de significado (ou mesmo de sentido) ou produtos de significado. É tudo a mesma coisa. Lembrando sempre o que disse acima: a experiência do conhecimento, muitas vezes, respira nas falhas da precisão semântica.