Primeira leitura

Relançando a revolução

Trecho de Cortina de Ferro

A incursão do Exército Vermelho no Leste Europeu em 1944 e 1945 não foi meticulosamente planejada, e nada do que veio em seguida - os atos de violência, os roubos, as reparações, os estupros - fazia parte de um esquema em longo prazo. A presença da União Soviética na região certamente foi o resultado acidental da invasão daquele país por Hitler, das vitórias do Exército Vermelho em Stalingrado e em Kursk e da decisão dos Aliados ocidentais de não seguir mais longe e mais rápido para o leste quando tiveram a chance. Contudo, é incorreto presumir que os dirigentes da União Soviética jamais houvessem vislumbrado antes uma invasão militar na região, ou então que fossem indiferentes à oportunidade. Ao contrário, já haviam tentado subverter a ordem política no Leste Europeu mais de uma vez.

Se os soldados do Exército Vermelho ficaram chocados com a relativa riqueza do Leste Europeu, os fundadores da União Soviética não teriam ficado nem um pouco surpresos, pois conheciam extremamente bem a região. Lênin passou vários meses morando em Cracóvia e na zona rural da Polônia. Trótski passou muitos anos em Viena. Todos eles acompanhavam atentamente a política alemã, e todos consideravam o que se passava na Alemanha e no Leste Europeu algo vitalmente importante para sua política.

Para compreender por quê, ajuda saber um pouco de filosofia e também um pouco de história, já que os bolcheviques liam as obras de Lênin e Marx não como elas são lidas hoje em dia, como textos de um curso universitário ou como uma de tantas teorias da história, mas como um dado científico. Contida na obra de Lênin (e desenvolvida por Trótski), havia uma teoria das relações internacionais bastante clara e igualmente "científica" que dizia algo assim: a Revolução Russa era a primeira das que viriam a ser as muitas revoluções comunistas; outras logo se sucederiam, no Leste Europeu, na Alemanha, na Europa Ocidental e depois por todo canto do mundo. Uma vez que o mundo todo fosse administrado por regimes comunistas, a utopia comunista poderia se realizar.

Seguro desse futuro cor-de-rosa, o próprio Lênin se referia às revoltas vindouras de maneira convicta e até com certa placidez inconsequente: "Zinoviev, Bukharin e também eu achamos que a revolução na Itália deveria ser incitada imediatamente", escreveu ele em uma mensagem a Stálin, em julho de 1920. "Minha opinião é que, para esse fim, a Hungria deveria ser sovietizada, e talvez a República Tcheca e a Romênia. Temos de refletir detidamente a respeito disso." Um ano antes ele se referiu ao "colapso mundial da democracia burguesa e do parlamentarismo burguês" como se isso estivesse iminente.

Os bolcheviques não pretendiam esperar sentados que essas revoluções amadurecessem. Como agentes da vanguarda revolucionária, almejavam promover o distúrbio por meio de propaganda, estratagemas e até conflito armado. Na primavera de 1919, eles haviam fundado a Internacional Comunista, popularmente conhecida como Komintern, um órgão oficialmente dedicado a subverter os regimes capitalistas conforme o programa leninista, tal como delineado em livros como Que fazer? (a furiosa crítica de Lênin à social-democracia e ao pluralismo esquerdista, publicada em 1902). Na prática, como afirmou Richard Pipes, o Komintern se constituiu em uma "declaração de guerra a todos os governos existentes".

No caos que se seguiu à Primeira Guerra Mundial na Europa, a possibilidade de que todos os governos existentes desmoronassem não parecia nem um pouco remota. Nos primeiros e instáveis anos, até parecia que de início as profecias de Marx se realizariam em seu país, a Alemanha. O Tratado de Versalhes e suas sanções geraram pronta insatisfação entre os alemães. Os camaradas daquele país, que à época compunham o maior e mais sofisticado partido comunista do mundo, imediatamente tentaram se utilizar disso em seu proveito. Em 1919, os comunistas alemães organizaram uma série de revoltas em Berlim. Semanas depois, dois veteranos da Revolução Russa ajudaram a liderar uma rebelião em Munique que proclamou, por breve tempo e de maneira pouco viável, uma República Socialista Bávara. Lênin saudou esses acontecimentos com entusiasmo. Enviados soviéticos oficiais foram despachados para o Soviete dos Trabalhadores Bávaros, chegando pouco antes que ele desmoronasse.

Essas rebeliões alemãs não foram casos fortuitos. Um pós-guerra similarmente caótico levou ao poder um regime comunista da mesma forma efêmero na Hungria, outro país que foi severamente punido por um acordo que retirou dois terços de seu território. Do mesmo modo que as revoltas alemãs, a breve revolução marxista na Hungria teve profundas conexões soviéticas. Seu líder, Béla Kun, participara ativamente da Revolução Russa, fundara a primeira delegação estrangeira no Partido Comunista soviético e até fizera amizade com Lênin e sua família. Kun partiu para Budapeste em 1919 a pedido de Moscou. Sua curta mas notavelmente sangrenta rebelião imitou a Revolução Bolchevique sob vários aspectos. Entre outros aspectos, os 133 dias da República Soviética Húngara ostentaram brutamontes com jaquetas de couro que se autodenominavam "os rapazes de Lênin", a transformação da polícia em uma "Guarda Vermelha" e a estatização de escolas e fábricas. Kun, no entanto, se revelou um líder político desastrado, assim como fora um conspirador desastrado (certa vez ele esqueceu uma maleta cheia de documentos secretos do Partido em um táxi em Viena). A República Soviética Húngara terminou de forma ignominiosa, com uma invasão romena e o estabelecimento de um regime autoritário dirigido pelo almirante Miklós Horthy.

De volta a Moscou, os bolcheviques julgaram esses reveses como algo temporário. Por certo, argumentavam eles, as forças reacionárias se revigorariam em face do crescente poder da classe operária. Por certo os imperialistas e os capitalistas lutariam com unhas e dentes para se salvar da destruição. Segundo a teoria marxista-leninista, admiravelmente flexível, o crescente poder da contrarrevolução apenas refletia a tenacidade da maré revolucionária. Quanto maior a oposição, tanto mais provável que o capitalismo malograsse. Tinha de malograr: Marx assim dissera. Zinoviev, o primeiro presidente do Komintern, estava tão confiante de que essa onda revolucionária estava prestes a arrebentar que, em 1919, previu: "Daqui a um ano já teremos esquecido que a Europa teve de travar uma guerra pelo comunismo, pois daqui a um ano toda a Europa será comunista".

Lênin também estava confiante. Em janeiro de 1920, momento em que a Guerra Civil Russa se aproximava do fim, ele aprovou um plano para atacar a Polônia "burguesa" e "capitalista". Embora houvesse motivos políticos, históricos e imperiais para o conflito - a nova fronteira entre a Polônia e a Rússia havia transferido terras anteriormente czaristas para o Estado polonês e tropas polonesas já estavam combatendo para tomar mais terras da Ucrânia -, o verdadeiro casus belli era ideológico. Lênin acreditava que a guerra levaria a uma revolução comunista na Polônia e posteriormente a revoluções comunistas na Alemanha, na Itália e em outros lugares, de modo que ordenou a criação do Comitê Revolucionário Polonês (Polrevkom), que começaria a se preparar para tomar o poder na Polônia soviética. Os delegados do II Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou no verão daquele ano, saudaram os relatos diários das vitórias bolcheviques, que eram sinalizadas em um mapa pregado em uma parede ao lado de um trono dos Romanov que fora descartado. Em Londres, Winston Churchill, então subsecretário de Estado, previu melancolicamente que "a nação polonesa apareceria como um anexo comunista do poder soviético".

Para enorme surpresa de todos, a guerra terminou com a categórica derrota dos bolcheviques. A reviravolta ocorreu em agosto de 1920 com a Batalha de Varsóvia, ainda lembrada pelos poloneses como "o milagre à beira do Vístula". Os poloneses não só rechaçaram o Exército Vermelho como lhe capturaram 95 mil soldados. Os restantes fugiram para o leste naquilo que logo se tornou uma completa debandada. O jovem Stálin desempenhou um papel menor nessa aventura fracassada: na condição de comissário político da frente sudoeste, desperdiçava comunicados durante a contraofensiva polonesa. Ao que tudo indica, pelo restante de sua vida ele guardou ressentimento dos "senhores de terras poloneses" e dos "aristocratas branquelos" que tinham desferido tamanho golpe no Exército Vermelho.