Primeira leitura

A simplicidade

Trecho de Nietzsche

Durante décadas ele usou o termo décadence, tomado dos contemporâneos franceses; a origem da expressão tem pouca importância. Mas Nietzsche a utiliza em um sentido mais amplo e mais profundo do que seria de esperar. Sobretudo ele reconhece na decadência uma fase necessária no processo de vir-a-ser e perecer. "O fenômeno da décadence é tão necessário quanto qualquer começo e avanço na vida." Ele se indigna contra os "socialistas sistemáticos", porque eles "pensam que poderia haver circunstâncias, 'combinações' sociais, em que o vício, a doença, o crime, a prostituição, a miséria não mais vicejassem... Mas isso significa condenar a vida", exclama ele entrementes e afirma: "Não depende do arbítrio de uma sociedade manter-se jovem [...]. Não se abole a idade através de instituições. Tampouco a doença. Tampouco o vício", ele assevera, e nesse ponto tem razão. Contudo, instituições abolem algumas coisas, como agora se sabe, e ele se recusou a prever isso. É possível que instituições diminuam tão somente por um breve período de tempo a porção de infelicidade humana, e apenas a parcela acessível a elas. A objeção às "instituições" socialistas torna-se, porém, suspeita tão logo se sabe que o orador de modo algum as deseja e que, segundo ele, "as muitas misérias de todos esses seres pequenos não constituem nenhuma soma".

Por décadence ele entende, antes de tudo, o pessimismo; quem esboça, porém, o quadro mais negro do destino humano? Como seus rivais ele aponta Schopenhauer, ao lado de Bismarck e do Reich, uma sagaz aproximação de grandes instâncias que não se conheceram. Wagner, seu primeiro "rival" e com quem treinou para todos os demais ódios, é novamente posto de lado. Sem dúvida, ele também passou a abominar cada vez mais o Reich, da mesma maneira que um filósofo ou um músico pessimista: com certeza pelas mesmas razões. O Reich se armava; transformava em "ouriço de disposição heroica" uma nação que tivera pensadores. O império incentivava o nacionalismo: aqui assoma em Nietzsche o nacionalismo, mas como uma doença, entenda-se. "O estranhamento doentio que a loucura do nacionalismo instalou entre os povos europeus e ainda instala" - a isso ele chama de "política do entreato". Nacionalismo e "império" - ouve-se nas entrelinhas o que ele de fato tinha a censurar: ambos emburrecem o cérebro e o tornam excessivamente enfurecido. A música - a romântica, não a "genuína" - lhe revela a mesma podridão: perigosa pelo excesso. Para ele o exato oposto de décadence é o pensar claro e livre. Decadência é tudo o que torna servil o pensamento, em particular um Estado mais preocupado consigo do que com a cultura. Como Estados que agem diferentemente são raros, Nietzsche decide: "A cultura e o Estado - não nos enganemos sobre isso - são antagonistas".

Eis aqui, enfim, o Nietzsche que, outrora, havia dado a uma juventude esquecida a autorização e os meios para que ela se apartasse e se libertasse, o que levou, por conseguinte, nos melhores casos, a novas e independentes realizações.


Deve-se dar mais ouvidos a esse Nietzsche do que ao que se pronuncia de outra forma. Essas são suas verdadeiras experiências com a liberdade de pensamento e a "dura existência da servidão". Pois a dureza, outrora tão enaltecida, torna-se de repente a coisa mais condenável no momento em que uma força não intelectual pretende escravizar o pensamento. O Reich que Nietzsche conheceu lidava com ele de maneira branda. Por meio de "instituições", que afinal influem em nossa felicidade ou infelicidade, ele refreava Nietzsche sem se dar conta do que estava fazendo. O modo como a inteligência era vista no país - pelo qual o Reich é, junto com outros fatores, em parte culpado - retardou por longo tempo a grande fama de Nietzsche. O aspirante à grande glória sofreu com isso. Mas ele não foi perseguido nem proibido de escrever, mesmo que o fizesse contra o Reich. Isso mudou desde então, como se vê e se pode sentir de múltiplas maneiras, intelectualmente, fisicamente, dentro e fora do Reich, que em breve não permitirá nada mais que lhe seja exterior.

A juventude de hoje e de ontem tem todos os motivos para retornar a um "grand seigneur do espírito" que considerava Voltaire um igual e a ele escreveu uma dedicatória, agora omitida. Os novos leitores aprenderam com Nietzsche, porém, a paixão pelo conhecimento, nada além disso! Não há em sua obra outra coisa que tenha sido tão plenamente vivida e refletida com precisão. Ele era experiente no serviço à palavra, na luta e no sofrimento pela palavra. Conhecia melhor o sofrimento que a vitória. Quanto à sua afirmação da vida, ela é resultado da fuga do sofrimento em direção ao mundo desconhecido dos senhores da Terra, e que senhores. Aliás, fica a questão de quem seriam, para ele, de fato, os senhores do futuro. Ele se manifestou sobre o trabalhador - de maneira pouco socialista, mas no sentido da ditadura do proletariado. Em "Do futuro do trabalhador" não há interrogações nem hesitações: "Trabalhadores deveriam aprender a sentir à maneira dos soldados. Um honorário, um salário, mas nada de pagamento! Nenhuma relação entre pagamento e desempenho! Mas, sim, posicionar o indivíduo conforme sua natureza, para que ele possa atingir o melhor desempenho ao seu alcance".

Mais: "Os trabalhadores devem viver um dia como agora vivem os burgueses; mas acima deles, marcados pela sobriedade, a casta superior: ou seja, mais pobres e mais simples, mas em posse do poder". Somente a conclusão não foi grifada por ele próprio: basta que ele tenha chegado até ela; e isso está em A vontade de potência, sua obra mais importante, sua última palavra. Ele honra os trabalhadores como a si mesmo, exige deles algo tão difícil e grande como do homem do conhecimento: ascese voluntária. "Todos somos trabalhadores", admite com orgulho. Ele tinha mais razão do que supunha para sentir orgulho.

Prometer a uma nova casta, conforme o modelo dos oficiais prussianos pobres e sóbrios de outros tempos, a posse do poder: isso era válido havia cerca de meio século, e desde então transcorreriam trinta anos até que começasse a se concretizar. O pré-requisito dessas sentenças geniais é uma simplicidade humana que por fim se alcança após ter suportado complicações; é preciso tê-las superado para, finalmente, de modo genial, ser simples.