Primeira leitura

Millôr Fernandes, esse desconhecido

Trecho de A segunda mais antiga profissão do mundo

Se Millôr Fernandes fosse americano estaria diariamente nas capas dos segundos cadernos de imprensa e nos shows de TV. Afinal, o que seria do teatro brasileiro sem ele? Há os originais. As traduções. As adaptações. Uma opereta. Prepara A chorus Line para Walter Clark. Fez a adaptação de Rei Lear para Sérgio Britto. Molière é freguês. A peça É... foi o maior sucesso de bilheteria da história do teatro brasileiro. Ibsen ou Feydeau. Não há e não acredito que tenha havido um talento tão versátil na história do nosso teatro.

Os meninos da minha geração liam todos Pif-Paf. Millôr se assinava Vão Gogo. A revista era O Cruzeiro. Vendeu 700 mil exemplares. Devíamos ter no máximo 60% da população atual. Nenhuma revista vende tanto em 1982. E não conheço quem lesse Veja que não procurasse logo as duas páginas que Millôr manteve durante catorze anos.

Somos amigos há trinta anos. Calma. Critiquei adversamente várias peças dele. Isso não "inflói" nem "contribói" - a amizade - nos meus palpites. Meus amigos sabem disso.

Nem tudo que ele faz é ótimo. Seria impossível. Mas o talento - gênio, às vezes - é marca registrada. O livro dele de artes me surpreendeu. Millôr é megalomaníaco. Todo artista de talento é. Mas nesse livro verifiquei que ele é melhor artista do que se imagina. E que a gente se acostumou à qualidade dele aos retalhos. O conjunto é devastador. Duvido que os cobras mais caros das artes plásticas tenham uma obra tão variada e complexa. O filho do Millôr me disse uma vez que o pai era melhor humorista literário do que desenhista. Ivan Fernandes está enganado. O desenho de Millôr contém todos os principais avanços da arte do nosso século e emerge com voz própria. O humor literário é uma crônica da sociedade e do ser humano brasileiro, como poucos romances ou poesia conseguiram igualar.

Já briguei política e esteticamente com Millôr várias vezes. Nunca brigamos pessoalmente. Detesto as cismas que tem contra certas pessoas. Acho que exagera (nunca está inteiramente errado, mas exagera). Acho infantil que se irrite que o popularesco seja mais bem-aceito do que o trabalho profissional de artistas. Democracia é isso. Democracia é porcaria. Democracia é redução do gosto à maximização do consumo. Democracia é melhor que ditadura. Politicamente apenas. As massas são imbecis. Marx era um judeu otimista (coisa rara). Acreditava em povo. É uma blague. Dez ou quinze por cento de qualquer (sic) sociedade são capazes de evoluir. Não importa o sistema político. Não importa que condições materiais prevaleçam. Alguns dos maiores imbecis e cretinos que conheço são ricos e tiveram todas as vantagens. O "homem mais elegante do mundo" adora Roberto Carlos em igreja. É milionário. Roberto Carlos é mais reflexão das massas do que Millôr. Millôr entende as massas. Roberto Carlos as explora (talvez inconscientemente). Mas essa é uma discussão de elite. Intelectuais vão quase sempre à esquerda porque se enojam com a estupidez popular. Querem "levantar o povo". É simpático. É humanitário. É bonito. É pueril. As massas gostariam de um agachamento confortável. Não querem saber da realidade e das possibilidades do ser humano. É inútil brigar com essa realidade. As pessoas de bem devem talvez tentar brigar. É uma decisão que satisfaz moralmente a quem tenta. Mas nada de ilusões.

Minha crítica a Millôr é que ele é oito ou oitenta. Ou se enfurece demais ou é gentil demais. Este último aspecto da personalidade dele só é conhecido dos amigos íntimos. E da legião que o explora. O que Millôr faz de graça para gente com quem simpatiza não está na Enciclopédia Britânica. Sei de pelo menos duas reputações que foram criadas pela IBM de Millôr. Deve haver outras. É roubado como todo autor. Mas não conheço autor que faça tantos favores a vagabundos (e undas) sem o menor talento. É por simpatia. Era preferível que ele se irritasse menos com quem detesta e fosse menos acessível a quem o explora. Deveria ser quarenta. Mas ninguém é perfeito.

É curioso que ele seja assim. Isso porque o que caracteriza a obra de Millôr é um profundo ceticismo por "ismos" e pela natureza humana. É o que dá grandeza a essa obra moralmente (o talento complementa). Millôr nunca foi de corriola alguma. Atacou a esquerda porque a achou mistificadora. A direita o julgou "cadeira cativa". Botou Castello Branco de biquíni numa capa de revista. O ditador mandou fechar a revista.

É essa repulsa a corriolas que faz de Millôr um desconhecido das seções de "cultura". Não se encontrará o livro dele nas seleções de fim de ano. Encontraremos toda espécie de subliteratos e carreiristas. Millôr não trabalha ninguém. Não ordenha os donos da cultura. Não pede nada a ninguém. É o que é. E é único.

Só Rubem Braga escreve português tão bem quanto ele. Fez tudo em teatro e bem. Mudou a face do humor brasileiro. O que não é necessariamente bom. Havia um humor mais escrachado pré-Millôr, de que sinto falta. Mas nenhum humorista voltou a essa linha pós-Millôr. É uma pena. Mas o humor de Millôr é único e insuperado.

Até ator de one man show foi. Se as feministas dizem besteira, ele as ataca. O patriarcado obtuso contra as mulheres o leva a paroxismos de fúria. Isso as feministas desconhecem. Como a esquerda das corriolas o desconhece. Como a direita de cabresto o desconhece. Ele é dos leitores. Era a glória de O Cruzeiro e fez de Veja assunto de discussão entre gente séria. Mantém nesta era massificada e eletrônica uma paixão pelo teatro que de certa forma é o teatro brasileiro. Não pode ser popular junto às seções de cultura. É bom demais para os medíocres. E estes - e não os humildes - sempre herdaram a Terra. Vejam Millôr no Canal livre em 2 de janeiro. Não é que ele vá acabar... mas é que o humano e individual em TV é tão raro.