Primeira leitura

O orgulho da busca de conhecimento

Trecho de Confúcio e o mundo que ele criou

Confúcio estabeleceu pessoalmente os padrões para a dedicação aos estudos no Leste Asiático. Tinha imenso orgulho de sua busca de conhecimento vitalícia e julgava que sua inquebrantável vontade de aprender fosse sua característica mais admirável. "Em um povoado de dez residências, decerto haverá os que me igualem em altruísmo e em confiabilidade", diz ele nos Analectos, "mas será improvável que sejam tão ávidos de aprender quanto eu". De acordo com o historiador Sima Qian, Confúcio lia seu exemplar do Livro das mutações com tanta frequência que desgastou três vezes as tiras que prendiam as páginas de bambu. Para Confúcio, aprender, ler e debater com seus discípulos era uma grande fonte de alegria. "Acumular conhecimento em quietude, aprender sem esmorecer e ensinar sem ficar cansado são atividades que não me trazem nenhuma dificuldade", disse ele certa vez.

Confúcio provavelmente se instruía bem mais do que a maioria das pessoas de sua época. Na Antiguidade, livros eram itens raros e preciosos mesmo numa sociedade tão dedicada à escrita como a China, e Confúcio provavelmente tinha maior acesso a obras de história e poesia do que a maioria dos seus contemporâneos. O chinês mediano da época dele tampouco desfrutava de tempo ocioso para sentar-se em algum canto e ficar lendo: havia lavouras por arar e bocas a alimentar. Consequentemente, Confúcio ficou conhecido durante sua existência por seu acúmulo de conhecimento quase enciclopédico. Obras históricas antigas relatam que pessoas o procuravam com todo tipo de indagações obscuras e ele conseguia resolver suas dúvidas. Em certa ocasião, um falcão atingido por uma flecha caiu morto na corte do duque de Chen, que interrogou Confúcio sobre o insólito incidente. O mestre identificou a fonte da arma instantaneamente. "Este falcão fez um longo percurso", informou ele ao duque. "A flecha pertence aos jurchens", uma tribo nômade da fronteira setentrional da China. Como, exatamente, Confúcio tinha conhecimento daquela particularidade? Os jurchens, explicou, haviam enviado flechas semelhantes − feitas de espinhos com pontas de pedra − como tributo a um antigo rei da China. O duque foi até o seu tesouro e, com efeito, achou as flechas guardadas ali; elas haviam sido presenteadas à corte fazia alguns anos.

Contudo, a maior parte do conhecimento de Confúcio era bem mais aproveitável. Ele era altamente reputado por sua sapiência em matéria de história, cerimonial áulico e cultura da Antiguidade chinesa. Esse conhecimento o tornou um professor popular e levou com que passasse longos períodos de sua vida como pedagogo. Fung Yu-lan, um pensador confuciano do século XX, inferiu que Confúcio pode ter sido o primeiro professor em tempo integral da China. Especulou ainda que o sábio se tornou o protótipo de uma categoria de eruditos − os ru, ou literatos − que viria a desempenhar um papel crucial na história do país. "Confúcio foi o primeiro chinês a fazer do ensino sua profissão e, com isso, a popularizar a cultura e a educação", afirmou Fung. "Também foi ele quem inaugurou, ou pelo menos desenvolveu, aquela categoria de homens distintos da China antiga que não eram nem agricultores, nem artesãos, nem comerciantes, nem servidores efetivos, mas eram professores profissionais e servidores em potencial."

Pode ser que Fung tenha exagerado em sua conjectura, mas não há como negar que Confúcio influenciou a própria estrutura da sociedade chinesa com sua ênfase na educação. Seus seguidores, pautando-se pelo exemplo dele, tornaram-se ferrenhos defensores da educação ao longo de toda a era imperial e engrandeceram o papel dos doutos no governo e na sociedade. A partir da dinastia Han, os confucianos popularizaram a ideia de que os homens se segmentavam em quatro grupos de ocupações, classificados conforme sua virtude e suas contribuições à sociedade. No topo, evidentemente, ficavam os eruditos, que por causa de seu saber superior tinham a responsabilidade de orientar todos os demais. Seguiam-se a eles, em ordem descendente, agricultores, artesãos e comerciantes. O prestígio conferido aos doutos ajuda a explicar por que os leste-asiáticos ficaram sendo e ainda são tão maníacos por educação. Na sociedade leste-asiática não há nenhum meio melhor de elevar seu status, assegurar seu sucesso ou fomentar sua família do que obter um doutorado numa bem-conceituada universidade.