Primeira leitura

Os intelectuais em busca
de uma religião

Trecho de O ópio dos intelectuais

Muitas vezes se aproximou socialismo e religião, ou a difusão do cristianismo no mundo antigo e a do marxismo na nossa época. A expressão "religião secular" se tornou banal.

A controvérsia em torno dessas comparações é igualmente clássica. Uma doutrina sem Deus merece ser chamada religião? Os próprios fiéis não aceitam a comparação, afirmando que a sua crença se mantém compatível com a fé tradicional. Os cristãos progressistas não demonstram a compatibilidade do comunismo e do catolicismo, vivenciando ambos, simultaneamente?

Em certo sentido, a querela é verbal. Tudo depende da definição dada às palavras. A doutrina fornece, para os verdadeiros comunistas, uma interpretação global do Universo, insufla sentimentos semelhantes aos dos cruzados de todas as épocas, fixa a hierarquia dos valores e determina a maneira correta de se comportar. Ela preenche algumas funções, na alma individual e na alma coletiva, que o sociólogo normalmente atribui às religiões. Não nos negamos a admitir a falta de transcendência ou de sacralidade, mas recordamos que muitas sociedades, ao longo dos séculos, ignoraram a noção de ser divino sem ignorar os modos de pensar ou de sentir e os imperativos ou devoções que o observador de hoje vê como religiosos.

Esses argumentos deixam intacto o verdadeiro problema. Pode-se definir a religião de tal maneira que ela englobe os cultos, ritos e paixões das tribos ditas primitivas, as práticas do confucionismo e os sublimes elãs de Cristo ou de Buda, mas qual seria o sentido de uma religião secular no Ocidente, em um ambiente impregnado de cristianismo?

OPINIÃO ECONÔMICA OU RELIGIÃO SECULAR

O comunismo se desenvolveu a partir de uma doutrina econômica e política, em uma época em que declinavam a vitalidade espiritual e a autoridade das igrejas. O fervor que, em outras épocas, poderia se exprimir em crenças propriamente religiosas tomou como objeto a ação política. O socialismo surgiu menos como técnica aplicável à gestão das empresas ou ao funcionamento da economia que como ruptura com a desgraça secular dos homens.

As ideologias de direita e de esquerda, o fascismo tanto quanto o comunismo, se inspiram na filosofia moderna da imanência. São ateias, mesmo que não neguem a existência de Deus, na medida em que concebem o mundo humano sem referência ao transcendente. Desse tipo de ateísmo, Descartes, segundo a polêmica de Laberthonnière, pode ser visto como o iniciador, por mais católico que fosse: interessava-se mais pela conquista da natureza do que pela meditação sobre o além. Os marxistas da Segunda Internacional e da Terceira de bom grado repetiam que a religião é uma atividade privada, mas viam a organização da cidade dos homens como a única atividade séria. A transferência das paixões seguia logicamente o deslocamento do centro de interesse. As pessoas se matavam umas às outras para determinar não mais qual igreja estava investida da missão de interpretar os textos sagrados e de administrar os sacramentos, mas qual partido ou qual método oferecia a melhor chance de distribuir, nesse vale de lágrimas, o conforto material para todos.

A democracia ou o nacionalismo, é verdade, suscitaram um fervor tão apaixonado quanto a sociedade sem classes. Em uma época em que os valores supremos estão ligados à realidade política, os homens servem com o mesmo fanatismo a independência nacional e uma ordem supostamente ideal. Nesse sentido, bastante vago, todos os movimentos políticos que agitaram a Europa moderna tiveram um caráter religioso. Não se veem neles, no entanto, a estrutura ou a essência de um pensamento religioso. Com relação a isso, o comunismo é único.

O profetismo marxista, como vimos, está em conformidade com o esquema típico do profetismo judaico-cristão. Todo profetismo traz em si a condenação daquilo que é e esboça uma imagem do que deve ser e será, e escolhe um indivíduo, ou um grupo, para vencer o espaço que separa o presente indigno do futuro fulgurante. A sociedade sem classes, que terá progresso social sem revolução política, é comparável ao reino de mil anos, sonhado pelos milenaristas. A miséria do proletariado prova a vocação e o Partido Comunista se torna a igreja à qual se opõem os burgueses/pagãos, que se recusam a ouvir a boa-nova, e os socialistas/judeus, que não reconheceram a revolução por eles próprios anunciada, por anos a fio.

Invectivas ou previsões podem ser traduzidas em termos racionais. As forças produtivas, desenvolvidas graças à ciência aplicada à indústria, só garantem, por enquanto, condições de vida decentes a uma minoria. Amanhã, a expansão da técnica, combinada com a mudança do modo de propriedade e de gestão, distribuirá para todos os benefícios da abundância. Com facilidade, passa-se do profetismo marxista à "grande esperança do século XX", da
fé revolucionária à teoria do progresso econômico.

De que modo o profetismo oscila para o lado da opinião arrazoada sobre o futuro das sociedades modernas ou para o do dogma pseudorreligioso?

Pode-se flexibilizar a teoria e admitir que a obra de renovação demanda a cooperação de todas as vítimas do capitalismo, de todos aqueles que, sem sofrer pessoalmente as ações do regime, reconhecem os seus vícios e querem eliminá-los. A vocação do proletariado nem por isso desaparece, somente deixa de ser exclusiva. Pelo seu número, pelo seu sofrimento, os operários de indústria são chamados a um papel eminente na humanização das sociedades tecnicistas; não são os únicos a sofrer a injustiça nem os únicos a fabricar o futuro.

Ou então, sem recusar nenhuma ajuda, reforça-se verbalmente o caráter proletário do salvador coletivo e do partido que o representa. É preciso - e basta - que o partido seja proclamado vanguarda do proletariado, qualquer que seja a participação dos operários de indústria, em carne e osso, na direção e na ação do partido. Partido que se aproxima de uma igreja, depositária da mensagem de salvação. Quem nela penetra, imediatamente recebe o batismo: é a igreja que exprime a vontade essencial do proletariado. Os que não são proletários, mas obedecem, participam dessa essência, enquanto os verdadeiros proletários que se negarem a segui-la deixam de pertencer à classe eleita.

O primeiro método, social-democrata, é o do senso comum, das reformas pacíficas, da democracia. O método do comunismo é o da violência, da revolução.

Na primeira direção, o profetismo se degrada em opiniões, que variam de nação a nação, razoavelmente prosaicas; o marxismo se decompõe nos seus elementos - hipóteses históricas, preferências econômicas. Na segunda direção, o partido-igreja endurece a doutrina como dogma, elabora uma escolástica e, animado por uma paixão, atrai uma quantidade imensa de adeptos.

Para que o sistema de interpretação comunista nunca tenha falhas, a delegação que o proletariado faz ao partido não pode apresentar exceções nem ressalvas. Esse decreto, por sua vez, obriga que se neguem fatos incontestáveis e que se coloque, no lugar dos conflitos reais e múltiplos, a luta estilizada de seres coletivos, definidos pela sua função em um destino já escrito. É de onde resulta a escolástica que várias vezes encontramos nas páginas precedentes: as elucubrações intermináveis sobre a infraestrutura e a superestrutura, as discriminações entre sentido sutil e sentido grosseiro, o acordo verbal forçado entre os vaticínios e um desenvolvimento histórico exatamente oposto, a recusa da objetividade, a substituição dos acontecimentos brutos (a tomada do poder pelo partido bolchevique em 1917) pelo significado histórico do acontecimento (revolução proletária).

Os sociais-democratas deixaram de lado essa escolástica, sem procurar conciliar os fatos com as previsões de ontem nem embutir a riqueza incomensurável das sociedades humanas em alguns enquadramentos conceituais. Só que, com isso, perdem o prestígio do sistema, da certeza, do futuro revelado. Os comunistas, pelo contrário, acreditam poder ligar cada episódio do seu movimento ao curso geral da história e a própria história a uma filosofia da natureza: eles nada ignoram, jamais se enganam, e a arte da dialética permite que combinem qualquer aspecto da realidade soviética com a doutrina, que se curva em todas as direções.

Juntos, profetismo e escolástica suscitam sentimentos semelhantes aos sentimentos religiosos. Fé no proletariado e na história, caridade para aqueles que hoje sofrem mas amanhã serão triunfantes, esperança de que o futuro traga o advento da sociedade sem classes: essas não são virtudes teologais que aparecem nos militantes de uma grande causa? Essa fé, porém, se prende menos à história do que a uma igreja cujos laços com o Messias pouco a pouco se afrouxam. A esperança é depositada em um futuro que, caso não se cumpra por meio de forças espontâneas, será obra da violência. A caridade dedicada à humanidade sofredora transforma-se, embrutecida, em indiferença no tocante às classes, às nações ou aos indivíduos condenados pela dialética. Hoje, e por muito tempo, a fé comunista justifica todas as medidas, a esperança comunista impede que se aceite existirem vários caminhos para o reino de Deus, a caridade comunista não deixa, aos inimigos, nem o direito de morrer honrosamente.

Psicologia de seita, mais do que de igreja universal. O militante se convence de pertencer ao pequeno número dos eleitos encarregados da salvação comum. Os fiéis, acostumados a seguir as curvas da linha, a repetir docilmente as interpretações sucessivas e contraditórias do Pacto Germano-soviético ou do complô dos médicos, tornam-se, de certa forma, "homens novos". Pela concepção materialista, as pessoas formadas segundo certo método seriam dóceis ao poder e plenamente satisfeitas com a própria sorte. Os engenheiros de almas não têm dúvidas quanto à plasticidade do material psíquico.

Em uma ponta, o socialismo se degrada em vagas preferências pela direção estatal da economia e pela propriedade coletiva; na outra, ele se amplia em sistema global de interpretação que junta, ao mesmo tempo, o Cosmos e as peripécias das lutas civis na Guatemala.

Alguém dirá que a comunista só se distingue de uma opinião político-econômica pela intransigência. Uma fé nova não é sempre intransigente? As igrejas se inclinam à tolerância à medida que o ceticismo as corrói. Mas não se trata de simples intransigência. Nada que se compare à religião secularizada do comunismo brotou do nacionalismo ou da democracia. Pode-se falar de fanatismo, à condição de se designar por esse termo os decretos pelos quais um partido, e um único, é transfigurado em guia do proletariado mundial, um sistema de interpretação superposto à incoerência dos fatos, uma via única para o socialismo proclamada imperativa para todos os povos. Fanático é o comunista que divide os homens em dois campos de acordo com a atitude que eles têm a respeito da causa sagrada, é o militante que obriga o pagão-burguês a escrever a sua autobiografia segundo a verdade revelada pelo Estado proletário.