Primeira leitura

Café sem leite

Trecho de As piadas de Zizek

Para entender melhor a noção do "não Todo", devo men­cionar uma notável piada dialética em Ninotchka, o filme de Ernst Lubitsch: um homem entra em uma cafeteria e pede café sem creme. O garçom responde: "Desculpe, o creme acabou. Posso trazer café sem leite?".

Em ambos os casos o cliente receberia café puro, mas esse café é acompanhado a cada vez de uma negação diferente: primeiro café sem creme e depois café sem leite. (De maneira semelhante, em 1990 o povo do Leste Europeu não queria apenas democracia sem comunismo, mas também democracia sem capitalismo.)

Temos aqui a lógica da diferencialidade, em que a própria falta funciona como característica positiva - esse paradoxo é muito bem expresso em uma velha piada iugoslava sobre um montenegrino (na ex-Iugoslávia, o povo de Montenegro era estigmatizado como preguiçoso): "Sabe por que o montenegrino, quando vai dormir, deixa dois copos ao lado da cama, um cheio e um vazio? Porque ele é tão preguiçoso que não consegue decidir se vai ou se não vai ter sede durante a noite...".

O interessante nessa piada é que a própria ausência tem de ser positivamente registrada: não basta ter um copo cheio de água, que o montenegrino apenas ignoraria caso não tivesse sede - esse fato negativo tem de ser registrado, a água não necessária tem de ser materializada no vazio do copo vazio.

Há um equivalente político em uma piada bastante conhecida da Polônia da era socialista. Um consumidor entra em uma loja e pergunta: "Você não deve ter manteiga; ou será que tem?". A resposta: "Desculpe, o senhor está na loja que não tem papel higiênico; a que não tem manteiga fica do outro lado da rua!".

Parecida (mas não idêntica) é a lendária resposta do editor de um dos jornais da [empresa de mídia] Hearst quando lhe perguntam por que não queria tirar suas longas e merecidas férias: "Meu medo é que o caos se instale aqui e tudo venha abaixo se eu sair de férias; mas meu medo ainda maior é que as coisas continuem normais sem mim, provando que eu não sou necessário!".

Certa escolha negativa (não ter férias, assistir a um filme já visto) é apoiada tanto pelo sim como pelo não. No entanto, há assimetria nas respostas, o que fica claro se imaginarmos o diálogo como uma sucessão de duas respostas: primeiro, a reação é a (negativa) óbvia ("Não gostei do filme" e "Meu medo é que tudo venha abaixo se eu sair de férias"); depois, quando esta não produz o resultado desejado, a razão oposta (positiva) é dada ("Gostei do filme" e "Tudo vai ficar bem sem mim"), e fracassa de maneira ainda mais lastimável.

Não surpreende que a resposta do editor da Hearst possa ser formulada como um diálogo na mesma linha da piada sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar da União Soviética:

- Por que você não tira férias? Você merece!

- Não quero, por dois motivos. Primeiro, tenho medo de tudo vir abaixo se eu sair de férias.

- Você está errado, as coisas vão continuar bem enquanto você não estiver aqui.

- Esse é o segundo motivo.